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WILIAN MARQUES
Lapso Em Urussanga, a gente descobre que envelhecer tem seu próprio ofício. Começa quando o sino da matriz, que na infância mandava na pressa da cidade inteira, agora espalha um som morno sobre as telhas, como quem perdeu a autoridade sobre nossos passos, e as vezes, nem tocar toca, perdemos o Angelus. Ando pelas ruas agora lajotadas, de passado poeirento, cruzo apenas com buzinas e faróis, fachadas angustiadas por atenção, luzes e letras agigantadas, famintas.Pois ando e vou

MARCIA MARQUES COSTA
há 6 dias2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Cotidiano O trabalho cospe minha alma de volta para a rua, um dia a menos para o aposento. Saio quando a luz já amoleceu as esquinas, pintando tudo de laranja. Fecho a porta e giro a chave no carro. Fico um instante apenas ouvindo meu coração, que parece vir de longe, correndo para me alcançar. As ruas das cidades pequenas se estendem como corredores conhecidos. Três carros à frente, lentos como barcos. Um aceno conhecido atravessa o para-brisa, a senha de um clube de vizinho

MARCIA MARQUES COSTA
26 de fev.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Confete A noite desaba em purpurina sobre o descampado onde a cidade termina e o nada começa. Os trompetes ainda vibram no ouvido, mas já não há ninguém segurando o estandarte. E agora, José. A festa evaporou no ar quente, o estandarte virou pano de chão, os deuses de espuma voltaram para as caixas de plástico. O Brasil, esse animal fabuloso, dorme com tinta e purpurina na cara e acorda com dívida no nome. Ainda assim respira fundo. Ainda assim ri. Não é ingenuidade, é méto

MARCIA MARQUES COSTA
19 de fev.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Despudor As moscas também amam. E fazem isso sem cerimônia, coladas ao vidro da janela, enquanto na sala, a reunião se arrasta com aquela cara de gente que já morreu e ninguém avisou. Problemas mudam de gaveta, vozes disputam palmo de poder, alguém pigarreia pra ver se existe. As moscas, porém, não sabem de nada disso. Estão entregues a um acordo silencioso, antigo, que não pedem autorização nem devolvem pudor. O vidro morno sustenta os corpos mínimos como cama provisória. Há

MARCIA MARQUES COSTA
12 de fev.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Anunciação Fevereiro se anunciou sem trombetas, apenas um deslocamento quase imperceptível no ar do dia a dia, e quando percebi já estava dentro do ano, correndo, como quem acorda no meio de uma conversa importante e tenta acompanhar. A vida não chegou, avançou. O tempo acelerou com a naturalidade de algo que sempre esteve fora de controle, e o mundo pareceu aceitar essa corrida como um acordo tácito. Há cheiros misturados de umidade, metal e promessas, sons sobrepostos que n

MARCIA MARQUES COSTA
5 de fev.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Dingobéu No sul do Brasil tropical, o espírito natalino surge suado, fora de prumo e de controle. Dezembro chega bêbado de sol, com vitrines piscando promessas e vendedores oferecendo felicidade multi parcelada. O asfalto ferve, a cerveja sua, o vinho esquenta e alguém insiste em cantar versos sobre neve enquanto abana o rosto com um panfleto de loja. Há uma alegria ruidosa, meio cafajeste, que se espalha pelos lares, pelas calçadas e pelos escritórios, já em modo de sobrevi

MARCIA MARQUES COSTA
18 de dez. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Tinta Escrever é um ato de egoísmo disfarçado de partilha. É a conversa mais sincera que eu consigo ter contigo caro leitor, enquanto o mundo lá fora acha que somos estranhos um ao outro. A mão no papel, ou os dedos no teclado, insistem como um coração teimoso, batendo no peito. Procuram uma fresta, só uma, por onde aquilo que somos de verdade possa escapar, sem alarde. Por isso, quando alguém me diz “eu li seu texto”, sinto um susto doce. Um ruído no ar. É como se tivessem e

MARCIA MARQUES COSTA
11 de dez. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Petit Comité O sol da tarde não incendeia, apenas ilumina com desdém o palco principal de nossos dias comuns: a calçada defronte à padaria cujo aroma é uma epifania diária e uma pequena traição. Aquele cheiro de pão quente e macio, um embuste que se desfaz duro e seco dentro do saquinho amarrotado, é o símbolo perfeito de nossa condição. Ali, na calçada rachada, está a sede não oficial do mais democrático dos clubes, aquele para o qual somos recrutados ao nascer, o Clube dos

MARCIA MARQUES COSTA
4 de dez. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Fatídico O sabiá morreu. Tombou na pedra dura como um verso rasgado do poema cotidiano, fuzilado por um para-brisa apressado, suas penas outrora avermelhadas, agora formavam uma pequena mancha triste à margem de uma praça qualquer. Os passantes criavam rotas de indiferença ao redor do corpo diminuto, dominados pela pressa cega que caracteriza nossas manhãs mundanas. Apenas um menino de uniforme escolar parou, seus sapatos novos quase tocando as asas alquebradas, seu olhar dur

MARCIA MARQUES COSTA
27 de nov. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Inerte O mundo é como um grande organismo respirando em ritmo lento, um teatro do absurdo onde todos representavam papéis sérios demais para o roteiro cômico que lhes fora dado. As pessoas carregam expressões solenes, como se estivessem administrando impérios em crise, quando na verdade debatiam-se com torneiras que pingavam e pães que queimavam no forno. Havia um humor involuntário nessa seriedade exagerada diante de catástrofes domésticas, o drama de perder as chaves, a tra

MARCIA MARQUES COSTA
13 de nov. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Flerte Não sei sobre o que escrever. Há um excesso de tudo, e talvez seja esse o problema. As coisas acontecem em silêncio e, mesmo assim, gritam. As pessoas piscam, respiram, se esbarram, e cada gesto contém uma história microscópica, tão viva quanto inútil. Penso que o mundo virou um arquivo de sensações órfãs: o cheiro de alguém que passou depressa, a poeira que dança na luz, o som de um riso infantil ou mesmo choro, que não tem plateia. Tudo parece pedir tradução, mas a l

MARCIA MARQUES COSTA
6 de nov. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Tic Tac O mundo acorda atrasado. É um vício coletivo, um pacto tácito de desajuste. O ônibus não chega, o semáforo não abre, o relógio insiste em correr mais rápido do que as pernas. No espelho, o narrador, ou talvez qualquer um de nós, mede o tempo com o fio da barba por fazer, a maquiagem meia boca, o café entornado, o cadarço que nunca colabora. O dia começa com um suspiro e termina antes de começar. Há um certo heroísmo em quem ainda tenta se arrumar com dignidade enquant

MARCIA MARQUES COSTA
30 de out. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Motor Existe uma espécie de eternidade que cabe em minutos. Ela aparece sem aviso, entre o fim de um esforço e o começo de um descanso. Vem quando o corpo está exausto, mas a alma, essa coisa que ninguém sabe onde mora, parece satisfeita. É o instante em que a mente silencia e o mundo, cansado de se exibir, resolve apenas ser. O volante quente sob as mãos, o horizonte dissolvendo o sol em tons de ferrugem, o vento lavando o rosto. Nada grandioso, nada digno de fotografia, e a

MARCIA MARQUES COSTA
23 de out. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Caloi A rua estava quase vazia, com aquele ar morno que o fim do inverno às vezes inventa para enganar o corpo. As luzes da farmácia brilhavam feito néon, e o letreiro piscava com uma teimosia quase brincalhona. Dois meninos, quase adolescentes, rodavam de bicicleta no meio-fio, em círculos desiguais, fingindo uma corrida que não tinha prêmio. As correntes rangiam, o asfalto ainda guardava o calor do dia, e o barulho dos pneus parecia um tipo de riso metálico. Eu observava do

MARCIA MARQUES COSTA
16 de out. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Ruido Hoje acordei com o ronco grave do caminhão recolhendo o lixo da rua. Um som áspero, metálico, que parecia mastigar o dia antes...

MARCIA MARQUES COSTA
9 de out. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Jornada No coração de uma cidade escondida, onde o relógio badalava devagar, preguiçando horas, erguia-se um pomar antigo, quase...

MARCIA MARQUES COSTA
2 de out. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Marmita Ela chega: um artefato de sobrevivência, quente da panela do restaurante ou fria da geladeira de casa. A marmita, esse pequeno...

MARCIA MARQUES COSTA
25 de set. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Mundano O mundo não para nunca. Ele gira e segue em frente, como um motor antigo e cansado, cheio de ruídos, vibrações e um ritmo que não...

MARCIA MARQUES COSTA
18 de set. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Redenção As ruas eram um rio de indiferença, onde os invisíveis nadavam contra a correnteza. O mundo anunciava o futuro em megafones...

MARCIA MARQUES COSTA
10 de set. de 20252 min de leitura


WILIAN MARQUES
Casulo O despertador do vizinho gritou às seis, mas ele já estava desperto. Não pelo barulho, mas pela sensação da própria carne. Uma...

MARCIA MARQUES COSTA
4 de set. de 20252 min de leitura
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