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WILIAN MARQUES
Prurido Toda queda de uma democracia começa com um convite. Alguém aponta o dedo para o vizinho, o estrangeiro, o diferente, e diz que ali mora a razão de tudo ter dado errado. É mais fácil odiar um rosto do que entender um sistema. E o medo, uma vez plantado, cresce sozinho, regado por cada notícia ruim, cada conta que não fecha, cada promessa velha que nunca se cumpriu. Nessa terra arada nasce a saudade de um tempo que talvez jamais tenha existido, um passado inventado do t

MARCIA MARQUES COSTA
9 de jul.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Pêndulo Eu habito a fresta entre os minutos, esse espaço que ninguém reivindica, e de lá observo o formigueiro humano circulando em fileiras invisíveis, cada um carregando às costas um pedaço de futuro, quase sempre maior que o próprio corpo. Ninguém para e pergunta para onde vai a fila, só se confia no instinto coletivo, na trilha deixada por quem passou antes e delirou que ali adiante havia recompensa. Às vezes o formigueiro vira cardume, e os corpos nadam juntos pelas mesm

MARCIA MARQUES COSTA
2 de jul.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Ego sum ego Reconheci recentemente uma criatura da mitologia urbana que desafia a biologia, a sociologia, filosofia, e, em certos momentos, não raros, a paciência humana. Trata-se do portador da ególatria, um ser que acorda todas as manhãs convencido de que nasceu para iluminar o mundo, embora ainda não tenha conseguido acender uma ideia própria. Vive sobre um palco imaginário, cuidadosamente montado com aplausos de aluguel e admiradores ocasionais, todos unidos pela preguiça

MARCIA MARQUES COSTA
25 de jun.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Miúdas Grandezas Talvez amor seja uma luz tardia, Chegando sem pressa ao coração, Como a última estrela do dia. Sem pedir nome ou explicação. Talvez seja um verso que respira, Entre o silêncio e a canção, Uma chama que nunca expira, Que aquece toda a escuridão. Talvez seja chuva sobre o vidro, Desenhando rios ao luar, Enquanto o mundo segue o ritmo, E nós aprendemos a bailar. Talvez amor não faça promessas, Nem jure eternidade ao céu, Ele mora nas pequenas peças Do sonho que

MARCIA MARQUES COSTA
18 de jun.1 min de leitura


WILIAN MARQUES
Tic Tac Há coisas que não falham. O granito não falha. A régua não falha. O sol, dentro de uma margem razoável de erro cósmico, também não falha. O nosso personagem pertencia a essa categoria, ou acreditava pertencer, que no fundo é a mesma coisa, basta que você acredite piamente. Várias décadas acumuladas, vários aniversários comemorados, cabelo branco, olhar miúdo e atento, de quem consegue ler bula de remédio no escuro, caneta sempre no bolso esquerdo da camisa simples, ma

MARCIA MARQUES COSTA
11 de jun.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Idiossincrasia Nenhuma espécie sobrevive por ser a mais forte. Sobrevive por ser a mais adequada ao ambiente que encontra, e o ambiente social, humano, convenhamos, há muito deixou de selecionar a integridade e a inteligência. Seleciona a plasticidade moral, a habilidade quase atlética de transformar a própria convicção em algo maleável, negociável, entregável mediante aprovação, ou, em alguns vários casos, de um preço. O mundo premia isso. Sempre premiou. Não com medalhas, m

MARCIA MARQUES COSTA
4 de jun.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Granítica O rio não é bonito. Ninguém vai fotografar o rio. Ele passa pela cidade meio encabulado, enferrujado, escuro de sedimento, sem orgulho e agonizando. E mesmo assim tem gente que mora de frente para ele, que abre a janela de manhã e olha, e fica. Não porque o rio seja bonito. Porque é o rio foi, é, e sempre será daqui. Tem algo nessa cidade que não se explica bem em qualquer conversa rasa, em folder ou folhetim. Urussanga não é a cidade que vive nos noticiários, seja

MARCIA MARQUES COSTA
22 de mai.3 min de leitura


WILIAN MARQUES
Maré O mar não se importa de mudar de humor. De manhã ainda é aquela coisa preguiçosa de porto calmo, água turva entre os cascos dos barcos que baloiçam, reflexo de nuvens que não tem pressa de ser nenhuma figura imaginada. A calmaria tem um cheiro particular, misto de maresia velha e madeira encharcada, de corda molhada e salgada enrolada em meses de subserviência. Os pescadores reconhecem esse cheiro. Sabem que ele mente. Toda calmaria é apenas uma tempestade sem pressa de

MARCIA MARQUES COSTA
14 de mai.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Forasteiro Vi um alienígena ontem. Quinze anos, talvez catorze, caminhava pela calçada com uma margarida na mão, não uma flor comprada em banca, uma flor achada, do tipo que nasce teimosa entre frestas de muros, e ele sorria para ela. Sorria para a flor. Num dia de segunda-feira, num mundo que aprendeu a ter pressa até para adoecer, num país onde se faz curso para aprender a ser homem e se esquece, com ignorância notável, de educar-se para ser humano. Fiquei parado. Não de ad

MARCIA MARQUES COSTA
7 de mai.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Gáudio A pessoa ria muito. Assim, à toa, de dente aberto, o tipo de riso que constrange os outros à mesa porque é largo demais, ocupa o espaço dos vizinhos, vibra no ar como coisa errada na hora certa. Era um sabado qualquer, choveu logo cedo, e num bar também qualquer, à beira de uma estrada movimentada, o sujeito ria. Não havia motivo aparente. O dia estava frio e cinza, o homem ao seu lado mexia no celular, a televisão no canto transmitia músicas chiadas, de tons desafinad

MARCIA MARQUES COSTA
30 de abr.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Retrovisor Tem uma hora do dia, quase sempre fim de tarde, quando a luz muda de intenção e intensidade, em que o mundo para de ser presente e vira lembrança ainda acontecendo, existindo, nascendo. Um cheiro de chuva em asfalto quente. O barulho de uma geladeira antiga. Uma música que ninguém mais ouve, mas que alguém, em algum lugar, está ouvindo agora, sozinho, com os olhos fechados e o coração palpitando. A nostalgia não avisa. Ela não bate à porta. Ela já estava dentro, gu

MARCIA MARQUES COSTA
23 de abr.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Desamor Abril em São Paulo não cheira a nada. A rua era estreita, o prédio novo, bonito com aquela beleza de coisa pré-fabricada que envelhece antes de secar a tinta. Fachada de vidro fumê, lobby com pedra cinza e uma planta que ninguém plantou. Subi, deixei a mala, deitei, apaguei a luz. Foi aí que eles começaram. Lá do apartamento de cima, com a pontualidade de quem já perdeu a esperança, mas não perdeu o horário. Ele falou de dinheiro. Ela respondeu com aquele silêncio que

MARCIA MARQUES COSTA
16 de abr.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Insípido Hoje o céu estava bonito demais para ser útil. Daquele azul tempestuoso, belo, mas sem intenção, cheio de nuvens dramáticas, varrido de eventos errantes, limpo de qualquer metáfora aproveitável. O café ficou no ponto certo, a temperatura era exatamente a que o corpo pede, e até o cachorro do vizinho optou pelo silêncio. Serei honesto: não aconteceu absolutamente nada. Um caminhão passou. Uma criança passou de bicicleta mais rápido que o caminhão. A tarde inteira desl

MARCIA MARQUES COSTA
9 de abr.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Janus Há uma mentira que o mundo repete com tanta convicção que acabou virando verdade. Ou o que cada um chama de verdade. Dizem por aí, nas conversas de calçada, nas mesas de bar, nos corredores das igrejas e das repartições, que fulano fez isso, que sicrano disse aquilo, que as coisas são assim e não podem ser de outro jeito. E todos concordam. E todos discordam. E ninguém percebe que estão falando de si mesmos o tempo todo. A verdade, essa senhora tão venerada, é filha úni

MARCIA MARQUES COSTA
2 de abr.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Singular Na sexta-feira, éramos absurdos. Fantasiados de coisa nenhuma, em um baile de carnaval qualquer, afoitos e bailantes, inebriados de momento, com alegrias baratas e com a euforia secreta de quem sabe que faz algo desnecessário e faz assim mesmo, por pura afirmação da própria alegria. Você ria do meu jeito torto de dançar. Eu ria do seu. A bebida estava morna, aguada, a banda desafinava na nota mais dramática, e havia entre nós aquela cumplicidade preciosa de dois jove

MARCIA MARQUES COSTA
26 de mar.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Folguedo O festejo subia o morro com uma lentidão de procissão, e a festa, meu caro, era uma dessas coisas que a gente, que dorme cedo, vê e desconfia, tudo muito limpo, muito certinho, muito jovem, como se a vida tivesse passado verniz onde devia ter suor. As luzes brancas recortavam o entardecer com uma precisão de alfaiate, e os copos e corpos primaveris, balouçantes e brincantes, pareciam que tinham medo de cair no ácido do tempo. O ar cheirava a perfume da moda, novidade

MARCIA MARQUES COSTA
19 de mar.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Ensaio O velho na pedra, e o mar a dançar as ondas vão, entre ir e voltar ele foi menino, corria no chão agora é salitre, cal nos ossos, imensidão O mar não pergunta se pode chegar só vem, só quebra, faz recuar a vida da gente é esse vai e vem onda que avança, onda que convém Cada onda nova é começo de mar cada onda antiga é um pouco de pesar o velho aprendeu na pedra a lição viver é ir viver é voltar, imensidão Já teve tempestade, já perdeu o céu já viu o vento levar pedra e

MARCIA MARQUES COSTA
12 de mar.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Lapso Em Urussanga, a gente descobre que envelhecer tem seu próprio ofício. Começa quando o sino da matriz, que na infância mandava na pressa da cidade inteira, agora espalha um som morno sobre as telhas, como quem perdeu a autoridade sobre nossos passos, e as vezes, nem tocar toca, perdemos o Angelus. Ando pelas ruas agora lajotadas, de passado poeirento, cruzo apenas com buzinas e faróis, fachadas angustiadas por atenção, luzes e letras agigantadas, famintas.Pois ando e vou

MARCIA MARQUES COSTA
5 de mar.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Cotidiano O trabalho cospe minha alma de volta para a rua, um dia a menos para o aposento. Saio quando a luz já amoleceu as esquinas, pintando tudo de laranja. Fecho a porta e giro a chave no carro. Fico um instante apenas ouvindo meu coração, que parece vir de longe, correndo para me alcançar. As ruas das cidades pequenas se estendem como corredores conhecidos. Três carros à frente, lentos como barcos. Um aceno conhecido atravessa o para-brisa, a senha de um clube de vizinho

MARCIA MARQUES COSTA
26 de fev.2 min de leitura


WILIAN MARQUES
Confete A noite desaba em purpurina sobre o descampado onde a cidade termina e o nada começa. Os trompetes ainda vibram no ouvido, mas já não há ninguém segurando o estandarte. E agora, José. A festa evaporou no ar quente, o estandarte virou pano de chão, os deuses de espuma voltaram para as caixas de plástico. O Brasil, esse animal fabuloso, dorme com tinta e purpurina na cara e acorda com dívida no nome. Ainda assim respira fundo. Ainda assim ri. Não é ingenuidade, é méto

MARCIA MARQUES COSTA
19 de fev.2 min de leitura
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