top of page

WILIAN MARQUES

Lapso


Em Urussanga, a gente descobre que envelhecer tem seu próprio ofício. Começa quando o sino da matriz, que na infância mandava na pressa da cidade inteira, agora espalha um som morno sobre as telhas, como quem perdeu a autoridade sobre nossos passos, e as vezes, nem tocar toca, perdemos o Angelus. Ando pelas ruas agora lajotadas, de passado poeirento, cruzo apenas com buzinas e faróis, fachadas angustiadas por atenção, luzes e letras agigantadas, famintas.Pois ando e vou vendo. Ali funcionava a locadora da Jadna, onde as fitas VHS passavam de mão em mão e as tardes de sábado e domingo cheiravam a plástico quente e pipoca de micro-ondas. Hoje é uma loja qualquer, mas ainda enxergo as prateleiras cheias, os cartazes do Van Damme, Clint Eastwood e Chuck Norris, as capinhas riscadas. Mais adiante, o bar do seu Pasini já não existe mais, mas o cheiro de café ainda escapa pelas frestas, misturado ao doce das cantinas, que fermentam igual aos sonhos que a gente guardou. A cidade perdeu a obrigação de ser promessa, de crescer feito aqueles folders coloridos que distribuíam nas festas. Agora é só presença, com suas paredes descascadas e um céu exageradamente azul. As esquinas, que antes reuniam a molecada de bicicleta esperando o pôr do sol para os primeiros amassos, hoje guardam um silêncio ruidoso, de modernidade. A casa da minha avó, antes sozinha na rua, agora se espreme, mas ainda sinto o cheiro de farinha com mel, o susto de embuchar com bolachão e café. Sigo caminhando, colecionando pequenas lembranças e claridades breves. Na beira do rio, a água insiste em repetir a mesma história, correr morta, cinzenta de ambição, e os trilhos de trem, ostentam uma ferrugem que tem elegância discreta de quem resiste por vontade, não por uso. No fim da tarde, quando o sino volta a tocar, já não peço que ele pare. Fico apenas escutando, com uma ternura presente, o som do que ficou e do que nunca mais será. E pela primeira vez isso não me parece triste nem bucólico. Parece verdadeiro, como a poeira no chão, como o cheiro de uva no ar, como a certeza de que a gente não perdeu a cidade. A gente apenas descobriu que ela cabe inteira dentro da gente, guardada naquele lugar onde os anos noventa ainda tocam no rádio e as tardes tem o calor da vida lenta.

 
 
PANORAMA 33.png

Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

LOGOS JORNAL SITE_edited.png
  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
  • TikTok
  • Telegram
  • X
bottom of page