WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 1 dia
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Insípido
Hoje o céu estava bonito demais para ser útil.
Daquele azul tempestuoso, belo, mas sem intenção, cheio de nuvens dramáticas, varrido de eventos errantes, limpo de qualquer metáfora aproveitável.
O café ficou no ponto certo, a temperatura era exatamente a que o corpo pede, e até o cachorro do vizinho optou pelo silêncio.
Serei honesto: não aconteceu absolutamente nada.
Um caminhão passou.
Uma criança passou de bicicleta mais rápido que o caminhão. A tarde inteira deslizou com a insolência das tardes que não devem nada a ninguém, e eu fiquei sentado à mesa esperando que o mundo me oferecesse algum absurdo pequeno, alguma cena capaz de render duas páginas e um final com aquela melancolia suave que os leitores toleram bem.
Nada. O mundo hoje estava em paz, e a paz, é preciso dizer, é o estado mais inútil para quem escreve.
Já escrevi antes sobre não ter do que escrever.
Duas vezes, pelo menos.
A primeira saiu até razoável, a segunda foi toleravel. Existe um limite de vezes que um cronista pode sentar diante do próprio vazio e transformá-lo em texto sem que o leitor perceba o truque e se sinta roubado. Esse limite, imagino, é dois.
Estou agora no terceiro, e a situação começa a ter o sabor específico das repetições honestas: água requentada, mas ainda é água.
Revirei o dia em busca de algo. O senhorzinho que sorriu sem motivo. A moça com filho colo, uma pressa com cadência que parecia música. O almoço simples e festivo, uma celebração tímida, sem espumante jorrando, mais um para a conta.
Nenhum desses fragmentos chegou ao tamanho de crônica. Ficaram rascunhos de vida, esboços de gente, matéria-prima que o dia se recusou a manufaturar. Então desisti. Fechei o notebook, lavei a xícara, olhei pela última vez o céu que continuava arredio e indiferente à minha necessidade narrativa.
E foi nesse gesto menor, nessa rendição quase infantil diante de um dia que simplesmente não colaborou, que senti alguma coisa difícil de nomear: às vezes o mundo não precisa de intérprete ou de citação gloriosa.
Às vezes ele simplesmente existe, com a serena arrogância das coisas bonitas que não pedem audiência. Não é consolo. É só o que ficou.


