WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 26 de mar.
- 2 min de leitura
Singular
Na sexta-feira, éramos absurdos. Fantasiados de coisa nenhuma, em um baile de carnaval qualquer, afoitos e bailantes, inebriados de momento, com alegrias baratas e com a euforia secreta de quem sabe que faz algo desnecessário e faz assim mesmo, por pura afirmação da própria alegria. Você ria do meu jeito torto de dançar. Eu ria do seu. A bebida estava morna, aguada, a banda desafinava na nota mais dramática, e havia entre nós aquela cumplicidade preciosa de dois jovens que por algumas horas se permitiram ser tolos, sem culpa, sem agenda, sem o peso das responsabilidades que durante a semana pousam no ombro da gente igual uma garça em palanque de pasto. O salão era um desfile de alegria e vida, e ninguém nos olhava porque todos estavam igualmente entregues, igualmente vivos naquela longa noite de sorrisos e de confete, éramos jovens. Já no domingo, o mar nos chamou para a sua seresta de ondas e areia. Levamos os infantes afilhados, e a manhã inteira foi um ato de paciência e encantamento. Vimos castelos desabarem sob a risada deles, vimos o susto diante da espuma, virar coragem em segundos. O menor tombou no chão duas vezes, e a areia lhe lambeu as mãos e pés. O maior tombou de propósito, entregue à queda como quem concede ao corpo a permissão de brincar. E nós, de joelhos no chão, éramos guardiões de um tempo que não voltrá mais. Mais tarde, no carro, eles dormiram dobrados naquela geometria impossível que só a infância permite. Em casa, o ritual da chegada: banho, comida, afeto, e ali ficamos, suspensos, olhando a respiração lenta deles, os dedinhos sujos de comida, a manha estrategicamente desenrolada, protelando o sono. Aquela pausa não estava em nenhum roteiro. Era o silêncio antes de tudo, éramos adultos. A gente não para para pensar que vive em camadas. Que o corpo que ontem dançava torto numa festa é o mesmo que hoje tira areia entre os dedinhos de um bebê. Que o amor tem muitas formas de ser: o da euforia nos braços de quem se escolhe, e o desse sono morno que a gente carrega com cuidado, como se fosse a coisa mais frágil e mais preciosa do mundo. Voltamos a vida corrida em êxtase, os meninos seguem seus dias infantis, e nós, não precisamos dizer nada importante. Não precisa. Tem dias em que a gente está tão inteiro, tão pleno, que qualquer palavra é desperdício...somos velhos, e felizes.


