WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 2 dias
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Janus
Há uma mentira que o mundo repete com tanta convicção que acabou virando verdade.
Ou o que cada um chama de verdade.
Dizem por aí, nas conversas de calçada, nas mesas de bar, nos corredores das igrejas e das repartições, que fulano fez isso, que sicrano disse aquilo, que as coisas são assim e não podem ser de outro jeito.
E todos concordam.
E todos discordam.
E ninguém percebe que estão falando de si mesmos o tempo todo.
A verdade, essa senhora tão venerada, é filha única de quem a conta.
Nasce dentro de cada pessoa, moldada pelas suas dores, pelas suas perdas, pelos seus amores mal resolvidos e pelas suas esperanças ainda mais mal resolvidas.
Não há verdade no ar.
Há versões flutuando, esbarrando umas nas outras, cada uma convicta de que é a única.
Aquele tal filósofo grego já sabia disso quando disse que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. O rio muda. Nós mudamos.
E a verdade que víamos ontem já não é a mesma que vemos hoje, embora insistamos em chamá-la pelo mesmo nome.
O que nos separa, então, não é a maldade.
É o espelho. Cada um enxerga o mundo através de uma vida inteira de experiências que mais ninguém viveu. Por isso o outro mente, mesmo quando fala a mais pura das sinceridades.
Por isso nós mentimos, mesmo quando juramos sobre todas as coisas sagradas, de dedinho cruzado.
A lição que a vida teima em não ensinar é simples e incômoda: a verdade do outro não é menos verdadeira por ser diferente da minha.
É apenas nascida de um lugar que não conhecemos. De uma dor que não sentimos.
De uma história que não foi nos contada.
Respeitar o outro é, antes de tudo, respeitar o que ele chama de real. É ter a humildade de entender que o mundo é maior do que a nossa janela permite ver. E a mentira mais perigosa de todas não é a que o outro nos conta. É a que contamos para nós mesmos quando acreditamos que só existe uma verdade. A nossa.


