WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 19 de mar.
- 2 min de leitura
Folguedo
O festejo subia o morro com uma lentidão de procissão, e a festa, meu caro, era uma dessas coisas que a gente, que dorme cedo, vê e desconfia, tudo muito limpo, muito certinho, muito jovem, como se a vida tivesse passado verniz onde devia ter suor.
As luzes brancas recortavam o entardecer com uma precisão de alfaiate, e os copos e corpos primaveris, balouçantes e brincantes, pareciam que tinham medo de cair no ácido do tempo.
O ar cheirava a perfume da moda, novidades novas, mas todos os perfumes eram iguais, comprados na mesma boutique, com o mesmo tédio por dentro. A mocidade estava toda ali, mas uma mocidade de vitrine, que não tropeça, não sua, e sorri, com calculado excesso.
Corpos padronizados em roupas uniformizadas, branco, marca, exagero, sustentando a grande mentira de que a vida está resolvida, de que o sono vem sem remédio, de que as contas estão pagas, de que a segunda feira não dói. Até o silêncio parecia ensaiado.
E então, no meio da estranheza, veio a surpresa.
Não a surpresa de descobrir algo novo, mas a de reconhecer algo antigo. Porque eu já fui assim. Jovem. Já tive esse riso, essa pressa de viver, essa certeza tola de que o corpo não vai cansar, esta ausência de respeito pelo amanhã.
A juventude dos outros é um espelho cruel, mas sincero: mostra não o que perdemos, mas o que um dia fomos sem saber, sem merecer.
E eu fiquei ali, bêbado de nada, desfrutando do despautério de pagar para arredar o álcool, renegar a vertigem, abdicar da embriagues, uma paga justa pelo juízo da idade.
Vendo aquele bailar jovial, entendi que a vida, quando quer continuar, escolhe sempre um jeito. Mora no singular, no novo, no excesso que não coube, na alegria infante.
Que se celebre, então, esse desperdício necessário de juízo, essa imprudência que ainda não se aposentou. Porque a eternidade, meus amigos, está no começo que insiste em nascer dentro de cada fim.


