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WILIAN MARQUES

Retrovisor


Tem uma hora do dia, quase sempre fim de tarde, quando a luz muda de intenção e intensidade, em que o mundo para de ser presente e vira lembrança ainda acontecendo, existindo, nascendo.

Um cheiro de chuva em asfalto quente.

O barulho de uma geladeira antiga. Uma música que ninguém mais ouve, mas que alguém, em algum lugar, está ouvindo agora, sozinho, com os olhos fechados e o coração palpitando.

A nostalgia não avisa. Ela não bate à porta. Ela já estava dentro, guardada em alguma gaveta que a gente jura que não abre mais, e abre o tempo todo, sem perceber, toda vez que o vento vem de um jeito específico ou que o silêncio tem uma textura familiar.

Não é tristeza, não exatamente. É outra coisa.

É o peso leve de tudo que foi real demais pra caber só no passado. É a saudade de um cheiro que a gente não consegue mais nomear, mas que o corpo reconhece antes da cabeça, e por um segundo o tempo dobra, e a gente está em dois lugares ao mesmo tempo, e nenhum deles é completamente o agora.

A saudade brasileira tem nome próprio porque precisa existir. Em outros idiomas ela anda sem documento, sem certidão. Aqui ela tem assento cativo, come à mesa, dorme do nosso lado, pega busão junto.

O estranho é que a gente sente falta até de coisas que não foram boas. Sente falta da ansiedade de uma espera do boletim. Do desconforto de um lugar que era difícil, mas era nosso. De uma tarde que na época pareceu comum, e que só virou especial quando foi embora, quando o calendário virou e aquele tipo de tarde nunca mais voltou igual. Saudade de um sorriso sem dono certo. De uma luz bucólica que entrava por uma janela que não existe mais. De um tempo em que as coisas tinham um ritmo que a gente não sabia que ia sentir falta, porque quando a gente está dentro do ritmo, não percebe que ele é uma dança rara.

Acho que a nostalgia seja isso: a prova de que estivemos presentes. De que algo nos atravessou com força suficiente pra deixar marca.

De que houve, e havendo, sempre haverá, dentro da gente, lembrança teimosa e bonita como uma erva daninha florescendo no concreto. A luz mudou de novo. Ficou alaranjada. E por um segundo, só um, o presente ficou pequeno demais, e a memória ocupou tudo.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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