WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 16 de abr.
- 2 min de leitura
Desamor
Abril em São Paulo não cheira a nada.
A rua era estreita, o prédio novo, bonito com aquela beleza de coisa pré-fabricada que envelhece antes de secar a tinta. Fachada de vidro fumê, lobby com pedra cinza e uma planta que ninguém plantou.
Subi, deixei a mala, deitei, apaguei a luz.
Foi aí que eles começaram. Lá do apartamento de cima, com a pontualidade de quem já perdeu a esperança, mas não perdeu o horário. Ele falou de dinheiro. Ela respondeu com aquele silêncio que antecede a frase que não precisa mais ser dita, já dita tantas vezes que virou eco. A voz dele baixou, menos interessada em convencer do que em existir: eu ainda estou aqui, e olha o que nos custou. Ela ria às vezes, mas era um riso sem dentes, o tipo que se usa para não fazer mais uma cena numa segunda-feira.
Não vi nenhum dos dois. Ouvi tudo.
O som descia pelo teto de concreto com a fidelidade de um áudio bem transmitido. Televisão de fundo, um locutor de jornal pastelão tipo Datena, e sobre aquela trilha eles desmontavam o que restava de um amor que devia ter sido bonito, estas ruínas são prova de que algo esteve de pé.
Ele pedia o controle remoto com tom de asco. Ela jogava algum objeto longe, não nele, o gesto cansado de quem já sabe que acertar não vale mais a energia.
Jantaram, ouvi as colheres. Sete minutos de silêncio e então ele perguntou se havia sal. Havia.
Ela demorou dez segundos para dizer que sim, e naqueles dez segundos eu soube que mesmo o sal era uma coisa inteiramente insossa naquela mesa.
Fui embora dois dias depois com as malas debaixo do braço e uma ternura sem merecimento pelas pessoas que dormem ao lado de quem já não querem.
Não os julguei.
Pensei: tem coragem nisso, uma coragem obtusa, a de acordar todo dia dentro da própria decepção e ainda assim perguntar onde está o sal.
Em algum lugar naquela aliança de ouro que nenhum dos dois tirou ainda havia alguma coisa pesando. Talvez fosse só hábito.
Mas o hábito, quando tudo o mais foi embora, pode ser a única forma de amor que ainda sabe o caminho de casa.


