WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 2 dias
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Allez!
A noite ardia em luzes amarelas, e lá dentro o mundo se despia de sua seriedade cotidiana para vestir os trapos coloridos da patuscada.
Era noite de folia sob a lona: trombetas rasgavam o ar, o tambor batia como coração apressado, e o público, aquele animal de mil cabeças, ávido e infantil, ria, aplaudia, engolia a pantomima como uma bebida barata: depressa, sem saborear, só para sentir a tontura.
No centro do picadeiro, Firulin, o palhaço, rodopiava. Caía, levantava-se, tropeçava de propósito, levava um tapa indolor de uma mão invisível, e a plateia se derretia de gargalhadas, louvando aquele corpo desengonçado, como se fosse feito só de pano e serragem, incapaz de sofrer, incapaz de ser gente.
Ele era o bobo eterno, a alegoria viva da festa: cada queda sua comprava um instante de esquecimento para centenas de vidas cansadas da rotina e assoreadas de problemas. Patuscada sagrada, quase religiosa, pagavam para rir, e ele vendia a graça de não ser ninguém.
Mas atrás da cortina de veludo remendado, quando as luzes se apagavam sobre a pista e se acendiam sobre seu rosto seminu, Firulin era apenas um homem de meia-idade, com dores nos joelhos e um filho doente em casa. Tirava o nariz vermelho, sem cerimônia, sem paixão, e por baixo não havia outro rosto: havia o mesmo, cansado, comum, mortal.
A farsa terminava para todos, menos para ele, pois o público levava para casa a memória do riso, e ele levava a memória do próprio corpo dolorido, do aplauso barato, uma paga que não lhe rendia amor, só moedas frias. Ali estava a crueldade doce do circo: transformar o absurdo, o bufão, em dádiva, e não pedir mais do que um riso frouxo em troca.
A pantomima alegra, o sino toca, o trapézio reluz, e o palhaço, herói anônimo da felicidade alheia, permanece, depois do “Allez!”, exatamente aquilo que sempre foi: um palhaço.
Nada mais, nada menos.
A plateia esquece seu nome antes mesmo de sair pela porta; ele, porém, não esquece o dela, porque é para ela, sempre para ela, que ele cai, rola, esperneia e levanta, sempre sorrindo.


