WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 8 horas
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Não me leia
Não me leia. Salve os olhos para coisa melhor, para a luz da tarde caindo enviesada na cozinha, para a risada de alguém que você ainda ama sem culpa. Eu sou só um bocado de tinta seca sobre pele de árvore morta, um rabisco que nasceu numa mesa de fórmica, sob lâmpada zunindo, ao lado de um monte de papel bagunçado e um copo de café requentado três vezes.
Não tenho a pretensão de valer seu tempo, essa moeda que ninguém consegue recunhar depois de gasta. Se veio buscar alento, vá embora agora, feche a aba, o jornal, apague a luz, porque aqui não há bálsamo, só o cheiro morno de sono e desistência que exala de quem escreve tarde demais, tentando explicar o inexplicável com palavras encardidas de tanto uso e reuso.
Sou indigno da sua atenção, e digo isso sem falsa modéstia, com a convicção seca de quem já se olhou no espelho do banheiro sob luz fluorescente e viu exatamente o que é: um sujeito comum, catando adjetivos feito quem recolhe moedas no fundo do sofá, tentando fazer poesia do próprio fracasso cotidiano.
Enquanto isso, lá fora, vidas inteiras acontecem sem precisar de metáfora nenhuma, o padeiro acorda às quatro, a enfermeira troca o soro, o pedreiro sobe o andaime com o café ainda amargando na garganta. Eles não precisam de mim. Você também não precisa.
Ler estas linhas é gastar sua brasa num cigarro que já não queima mais, é trocar o sol verdadeiro pela sombra impressa de um sol qualquer, desenhado por mão trêmula e vaidosa demais para calar de vez.
Mas se chegou até aqui, talvez seja porque também gosta, um pouquinho, de chafurdar em coisas mal ditas e pior vividas, de espiar a ferida alheia à luz de vela, de sentir o gosto amargo de um café requentado que ninguém pediu, mas que ninguém joga fora.
Então fique. Sente se nessa poça de palavras encardidas comigo, sem pressa, sem vergonha nenhuma. No fundo, ninguém lê por dever.
Lê por fome, por solidão, por um resto de curiosidade sobre o quanto a dor do outro pode parecer, vista de longe, quase bonita, quase nossa.



