WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 1 dia
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Batera
O barquinho surgiu sem dono na manhã de um dia qualquer, tocando o cais de lugar nenhum com uma delicadeza imprópria. Ninguém o reclamou.
Talvez porque o que está à deriva não pertença a ninguém, e sim ao movimento, essa lei silenciosa que empurra as coisas sem lhes perguntar o rumo.
Há uma filosofia inteira num barco vazio.
Ele não decide, não teme, não espera: apenas obedece à água. E a água, por sua vez, obedece a nada e ninguém, não tem senhor.
Debruço-me na dúvida ingênua: é tolice ou altivez? Deixar-se conduzir sem exigir explicações do vento.
O acaso é morno, e não tem a violência das tragédias nem a doçura dos milagres. É esse vaivém fatídico das horas, esse rumor de maré que sobe meio distraída e desce sem nostalgia. A vida, quando presta atenção em si mesma, descobre que é feita muito mais de correntezas anônimas, do que de decisões. Dizem que o destino tem bom humor, e talvez tenha, mas é um bom humor sem nenhuma promessa de riso.
Ele arruma as coincidências devagar, no escuro, e só acende a luz quando já finalizou sua obra. Chamamos de sorte o que apenas demorou; de azar, o que chegou cedo demais. No fundo, é tudo a mesma correnteza mudando de nome.
O barquinho girou sobre o próprio eixo, indeciso entre o porto e o horizonte. E nesse giro tem um pouco de algo humano e algo de eterno: a hesitação, essa forma delicada de estar vivo. Partir e ficar são, no fundo, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. O que muda é apenas a maré.
O sol subiu sem cerimônia.
A luz caiu sobre a água como uma resposta que ninguém tinha pedido. O barquinho tomou o rumo do mar aberto, sozinho, digno, ligeiramente ridículo, corajoso, e por isso mesmo comovente. Fiquei olhando até virar um ponto, depois um talvez, depois nada. E entendi que a beleza das coisas está justamente na sua leveza de nos abandonar.
Tudo o que importa passa morno, quase sem tocar.
O acaso me trouxe até aqui e o acaso há de me levar; enquanto isso, permaneço nesta margem incerta, observando o mundo ir e vir, sem exigir dele mais do que este raro instante de o ver flutuar.


