WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 19 horas
- 2 min de leitura
Teimosice
Você leu. Eu avisei, botei a placa na porta, disse com todas as letras que não valia a pena gastar os olhos comigo, e mesmo assim você leu, teimosamente, como quem desobedece ao próprio instinto, só para provar que ainda tem vontade própria. Eu via daqui, do lugar onde os fantasmas, ou escritores, ficam quando o texto já foi escrito e não pertence mais a ninguém, o jeito como seus olhos correram linha a linha, sem pressa de fechar a página, a aba do navegador, sem vergonha de perder tempo com um sujeito qualquer catando palavras numa mesa de fórmica.
Lá fora, a tarde ia embora devagar, o rádio do vizinho tocava uma música que ninguém pediu, e você, cabeça baixa, decidiu ficar.
Não foi por precisar, foi por teimosia mesmo, essa coisa besta que faz a gente atravessar a rua no sinal vermelho só porque já começou a atravessar.
A teimosia do leitor é parente da teimosia de quem planta em terra ruim.
Sabe que não vai dar fruto bonito, e planta assim mesmo, só para ver o que nasce da obstinação pura.
Você continuou lendo depois do aviso, depois da recusa, depois de eu jurar que não tinha bálsamo nenhum guardado nestas linhas encardidas. Talvez tenha sido curiosidade, essa prima cínica da fome intelectual. Talvez tenha sido solidão, batendo baixinho na porta feito os antigos vendedores de enciclopédia.
Ou talvez você só quisesse confirmar que eu falava sério quando disse que era pouco, e agora está aqui, no meio do texto, com a prova nas mãos, e continua, porque parar seria dar razão a um estranho que nunca conheceu direito. Essa é a graça torta da teimosia, ela não pede licença para lógica nenhuma.
E aqui estamos, você e o fantasma que escreveu isto numa noite qualquer, sem café requentado, luz zunindo, os dois sabendo que o texto não ia salvar ninguém.
Mas você chegou até o fim, teimoso, e eu, que já devia ter sumido depois do último parágrafo, ainda estou aqui, meio grato, meio sem jeito, sem saber dizer isso sem parecer piegas, ou água com açúcar.
Fico só pensando que a leitura, como a teimosia, não precisa de motivo bonito para existir.
Basta o gesto de continuar onde já se disse que não valia, e nisso, sem querer, texto e leitor se tornam um pouco menos sozinhos.



