WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 4 horas
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Zé

Zé tem uma bicicleta antiga, dessas que rangem baixinho como uma reza abafada. É nela que ele vai e volta do trabalho, todo santo dia, chova ou não chova, porque a vida de Zé nunca teve muita escolha, só muito jeito. De manhã, a bicicleta e o corpo saem juntos de casa, meio grudados um no outro, tal qual parentes. O sol ainda está espreguiçando atrás do morro, e o Zé já está lá, pedalando devagar, sem afobação, olhando o mundo do jeito que ele consegue olhar: rente, inteiro, sem pressa de chegar.
As mãos do Zé são grandes e ásperas, feitas de tanto segurar guidão, ferramenta, e às vezes, sem jeito, a mão de algum filho pequeno. Mas essas mesmas mãos, que parecem de pedra, sabem ser leves na hora certa. Zé é assim: duro por fora, como coisa que já apanhou muito do tempo, e macio por dentro, como coisa que ainda acredita em gente. Teve dias ruins. Teve pneu furado no meio da noite, chuva que não pediu licença, cansaço que pesava mais que qualquer carga no bagageiro. Mas o Zé nunca chegou em casa ou no trabalho, sem um sorriso guardado pra dar a quem precisasse. Sorriso de Zé não é armário fechado, é porta aberta, é lugar onde cabe todo mundo. Na volta do trabalho, por nonde passa, cumprimenta todos e cada um, acena com a cabeça, mão em riste, mesmo cansado, mesmo com a noite já quase caindo em cima dele. Não é obrigação. É jeito de ser. Zé trata rico e pobre com o mesmo respeito, porque aprendeu, ninguém sabe bem onde, que gente boa não se mede pelo bolso. A bicicleta enferruja um pouco a cada ano. O Zé também. Mas os dois seguem, um puxando o outro, feito velhos amigos que já não perguntam mais pra onde vão, só continuam. Um dia essa bicicleta vai ficar encostada na parede, sozinha, sem ninguém pra pedalar. E aí a gente vai entender o tanto que o Zé preenchia o caminho todo, só de passar por ele, de bicicleta e sorriso, indo e voltando do trabalho, tecendo, sem saber, os dias dos outros.


