WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 3 dias
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Prurido
Toda queda de uma democracia começa com um convite. Alguém aponta o dedo para o vizinho, o estrangeiro, o diferente, e diz que ali mora a razão de tudo ter dado errado. É mais fácil odiar um rosto do que entender um sistema.
E o medo, uma vez plantado, cresce sozinho, regado por cada notícia ruim, cada conta que não fecha, cada promessa velha que nunca se cumpriu.
Nessa terra arada nasce a saudade de um tempo que talvez jamais tenha existido, um passado inventado do tamanho exato da falta que se sente hoje.
Depois vem o trabalho mais silencioso, que é matar a palavra antes de matar o corpo.
Chama se de mentira o que incomoda, chama se de imparcial o que obedece. Cria se um canal próprio, uma voz que fala direto ao ouvido de quem já estava com raiva, sem intermediário, sem pergunta, sem contraponto.
A dúvida é o primeiro luxo que se abre mão numa crise, e sem dúvida não sobra pensamento, sobra repetição vestida de convicção.
As instituições resistem por um tempo, como móveis que ainda seguram o peso mesmo carcomidos de cupim. Trocam se os juízes por aqueles que são providencialmente míopes, aparelha se a polícia, esvazia se o parlamento até virar cenário de filme pastelão.
As leis mudam devagar, um artigo aqui, uma regra ali, até que a vitória do outro lado se torne matematicamente improvável, e ninguém precise mais forçar uma eleição, porque a eleição já nasceu decidida, e não foi por votos. No centro de tudo se ergue uma figura que promete ser o corpo inteiro da nação, como se um ser só coubesse dentro de um país sem sobrar ninguém de fora.
Debate vira traição, dúvida vira fraqueza, e o que resta é o gesto coletivo, a marcha, o uniforme, a saudação, o símbolo repetido até virar reflexo.
Quem discorda deixa de ser cidadão e passa a ser inimigo, alguém a se vigiar, calar, apagar da conversa e da vida pública. O mais estranho é que tudo isso costuma ter uma porta de entrada legal, aplaudida, votada, pedida.
O autoritarismo raramente invade.
Ele é convidado para entrar, com a promessa de arrumar a casa, e só depois de instalado é que se percebe que trocou as fechaduras.


