WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 9 horas
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Pêndulo
Eu habito a fresta entre os minutos, esse espaço que ninguém reivindica, e de lá observo o formigueiro humano circulando em fileiras invisíveis, cada um carregando às costas um pedaço de futuro, quase sempre maior que o próprio corpo. Ninguém para e pergunta para onde vai a fila, só se confia no instinto coletivo, na trilha deixada por quem passou antes e delirou que ali adiante havia recompensa. Às vezes o formigueiro vira cardume, e os corpos nadam juntos pelas mesmas correntes de horários e rotinas, viram à esquerda quando todos viram, fogem do mesmo predador imaginário sem nunca ver a sua sombra completa, só o reflexo dela nas escamas do vizinho ao lado. Há uma beleza hipnótica nisso, confesso, essa coreografia estranha sem maestro, mas também um cansaço enorme de nadar contra o nada, e a favor de lugar nenhum, só para não ficar para trás, em um cardume que talvez esteja totalmente perdido. E os sonhos, ah, os sonhos. Hoje vêm pré-fabricados, embalados a vácuo, prontos em 3 minutos, é só acrescentar entusiasmo e mexer bem antes de consumir. Gosto genérico, aquele sabor que não ofende ninguém porque não pertence a ninguém, testado em laboratório para agradar a média das aspirações humanas, vendido nas redes digitais como elixir da felicidade. Ninguém mais sonha do zero, falta tempo, falta fogão com fogo lento, falta paciência para deixar a fantasia cozinhar em fogo baixo até apurar sabor próprio. Compra-se o sonho da prateleira certa, da vitrine que mais brilha, e engole-se quente, sem mastigar, porque o próximo prato da fila já está esfriando atrás de você. O formigueiro inteiro consome a mesma receita ao mesmo tempo, é comovente e patético essa sincronia, um coro afinado cantando a mesma canção de letra plagiada.
Ao entardecer, vejo as formigas recolherem à toca e os peixes se aquietarem nas pedras, fingindo sono, e percebo que ninguém ali escolheu a fila, só nasceu dentro dela. Fico aqui, fantasma sem pressa nenhuma, ternura cansada por essa multidão que confunde movimento com destino, e penso, sem pregar nada, que a única rebeldia possível talvez seja parar um instante, sair da formação, deixar o cardume seguir sem você, e descobrir que o mar, mesmo vazio de companhia, ainda encanta com seu balanço desarmônico.


