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WILIAN MARQUES

Tic Tac


Há coisas que não falham. O granito não falha.

A régua não falha. O sol, dentro de uma margem razoável de erro cósmico, também não falha.

O nosso personagem pertencia a essa categoria, ou acreditava pertencer, que no fundo é a mesma coisa, basta que você acredite piamente.

Várias décadas acumuladas, vários aniversários comemorados, cabelo branco, olhar miúdo e atento, de quem consegue ler bula de remédio no escuro, caneta sempre no bolso esquerdo da camisa simples, mas sempre alinhada, incontáveis folhas avulsas preenchidas por anotações, sinapses, pensamentos, apontamentos. Anotava tudo.

A hora, o tempo, o nome de quem passou, de quem falou, o número do ônibus que não parou, a qualidade do café, a temperatura do vento, a pedra mal colocada.

E sempre tinha uma história pronta, porque um sujeito que anota minucias, acumula letras para narrar o mundo inteiro antes mesmo do café da manhã.

Mas, naquela noite, o galo não cantou.

Não havia galo, é verdade, mas havia o equivalente urbano: uma cadeia de certezas em antigos contratos sociais, que se desfez sem aviso, com a elegância irritante dos desencontros que ninguém anuncia com a devida antecedência.

O desvio que não estava em nenhum mapa. A chuva que começou no dia que não estava previsto. A folha com os rabiscos que ficaram ilegíveis.

Cada tropeço era pequeno e, em separado, narrável com graça e raridade. Juntos formavam o absurdo que nosso sujeito nunca havia habitado: o atraso, essa condição alheia, esse estado incômodo, pecado dos outros.

Chegou com 15 minutos de atraso, a face surpresa, olhos arregalados, a cabeça mirando mil lados em busca de explicação, e a pergunta angustiada: não era as 7?

Ficou parado na porta tentando formular o acontecido em palavras catalogáveis, tentando encontrar a anedota que o organizasse. Não encontrou.

O granito também racha, mas racha devagar, em silêncio, e só percebe quem passa a mão na superfície fria e tateia a cicatriz. Situou-se, acalmou-se, viveu o momento.

E percebeu, ao encostar-se na parede, que desta vez a história havia acontecido nele, não diante dele, e que levaria algum tempo até conseguir contá-la.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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