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WILIAN MARQUES

Farpa


Tem gente que anda a vida inteira com uma mágoa guardada na mala de mão, aquela pequena, que cabe debaixo do banco do ônibus e nunca precisa despachar no balcão do aeroporto. Ninguém vê o peso de fora, porque o rosto continua fazendo compras, pagando conta, sorrindo amarelo, rindo de piada de churrasco no domingo, amando pouco sem disfarçar. Mas o coração sabe. Muda de calçada para não passar em frente a um portão específico, some da sala quando alguém liga o rádio numa estação tocando a música certa, guarda dentro da bolsa um ressentimento antigo, escondido no bolso interno, sem entender direito o motivo, apenas incapaz de terminar o gesto de jogar fora aquilo dobrado, amassado, quase transparente de tão velho.

A origem varia de pessoa para pessoa, um tapa que ninguém pediu desculpa depois, uma piada contada bem na hora errada, um telefone que parou de tocar num sábado qualquer, uma mensagem lida e não respondida, um pai que foi embora comprar um cigarro raro demais para ser encontrado. Um marido que não soube dizer não ao pecado. O mecanismo, porém, se repete com uma regularidade quase cômica, quase administrativa. A mágoa não fica parada no lugar exato onde nasceu. Ela se disfarça de hábito, de mania, de regra de casa que ninguém explica direito quando a visita pergunta o motivo. Vira o jeito de trancar a porta duas vezes antes de dormir, de desconfiar de elogio fácil demais, de guardar dinheiro escondido mesmo depois de rico e estabelecido na vida. Cresce junto com a pessoa, muda de roupa, aprende a se comportar direito em festa de casamento, mas nunca vai embora de vez, nunca se despede de verdade.

Envelhece com a gente essa bagagem, fica mais leve em alguns dias e pesadíssima em outros, sem aviso nenhum, sem calendário certo para avisar, sem momento perfeito. Um cheiro de perfume específico, uma música tocando, uma discussão boba, às nove da manhã no hospital, um oi no tom melodioso demais, e ela volta inteira, esperando sua vez na fila da dor, com a mesma força de quando nasceu, lá atrás, há décadas. A gente aprende a viver com ela, ou melhor, a sobreviver, escondendo-a aonde se pode, aonde se consegue, mas, ela sabe a hora de escapar, e espetar, feito farpa fina. Não cura. Não sai. Apenas aprendemos a andar de um jeito que ela incomode menos, ate ter coragem de rasgar a carne e perdoar.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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