WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 2 dias
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Ego sum ego
Reconheci recentemente uma criatura da mitologia urbana que desafia a biologia, a sociologia, filosofia, e, em certos momentos, não raros, a paciência humana. Trata-se do portador da ególatria, um ser que acorda todas as manhãs convencido de que nasceu para iluminar o mundo, embora ainda não tenha conseguido acender uma ideia própria.
Vive sobre um palco imaginário, cuidadosamente montado com aplausos de aluguel e admiradores ocasionais, todos unidos pela preguiça de contestar. Em sua cabeça, cada frase é uma conferência histórica. Na prática, costuma ser apenas barulho em alta definição. Fala com a segurança de quem desconhece completamente o assunto. Lê sem nada entender, escuta menos ainda e acredita que volume substitui conteúdo. Confunde atenção com admiração, exposição com relevância e insistência com razão. É um fenômeno curioso. Quanto menos tem a dizer, mais tempo leva dizendo.
O espetáculo atinge seu auge quando alguém ousa contrariá-lo. Nesse instante, a maquiagem derrete, desaba, e surge a versão mais autêntica do personagem. Não uma versão melhor, apenas mais crua e verdadeira. O rosto endurece, o repertório encolhe e a eloquência abandona o recinto sem deixar recado de “volto logo”. O que vem depois é uma sequência de indignações mal ensaiadas, ofensas recicladas e certezas produzidas em série baratas de canais alternativos.
Há uma beleza involuntária e humana nessa cena. É a pureza do equívoco em estado bruto. O sujeito se agita, gesticula, ergue a voz e distribui acusações com a mesma organização de um ventilador espalhando farinha pela cozinha. Ao final, exausto pela própria performance, contempla a obra realizada e sorri satisfeito.
Acredita ter demolido argumentos, derrubado adversários e reequilibrado o universo.
Na verdade, apenas promoveu mais uma reunião pública entre a vaidade e o constrangimento.
E talvez exista uma vitória escondida ali. Não uma vitória do pensamento, da inteligência ou da razão. Essas sequer compareceram ao evento. O triunfo ocorreu em outro campo.
O ególatra conseguiu desperdiçar uma quantidade monumental de silêncio, bem cada vez mais raro e valioso. Consumiu tudo sem deixar sobras.
O restante do mundo observa a cena com uma mistura de espanto, diversão e certa ternura zoológica, faz carinho, bate foto, mas não, não podemos levar para casa.
Afinal, não é todo dia que se vê alguém tropeçar na própria importância e levantar convencido de que executou um salto olímpico.
Há entretenimentos mais caros e certamente mais sofisticados, mas poucos oferecem retorno tão generoso.
O tolo que se leva a sério continua sendo um dos grandes humoristas involuntários da humanidade.
Trabalha de graça, não exige roteiro e ainda fornece material pronto para qualquer cronista que tenha a sorte de cruzar seu caminho.


