WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 4 dias
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Idiossincrasia
Nenhuma espécie sobrevive por ser a mais forte.
Sobrevive por ser a mais adequada ao ambiente que encontra, e o ambiente social, humano, convenhamos, há muito deixou de selecionar a integridade e a inteligência. Seleciona a plasticidade moral, a habilidade quase atlética de transformar a própria convicção em algo maleável, negociável, entregável mediante aprovação, ou, em alguns vários casos, de um preço. O mundo premia isso.
Sempre premiou. Não com medalhas, mas com o que realmente importa: poder, pertencimento, conforto, o calor frouxo de nunca ser o que contradiz.
O que ninguém nos conta é que flexível, aqui, não significa resiliente. Significa poroso, permeável, carcomido. A verdade entra por um lado e sai pelo outro sem deixar marca, porque a arquitetura interna foi erguida para isso, para não reter o que incomoda nem absorver o que corrói.
O que o mundo chama de idiota não é o obtuso, o lento, o que não entende. É o que entende perfeitamente absurdos fabricados e mesmo assim vende como verdades.
É o que calcula, com uma lucidez fria e admirável, que a dignidade tem preço de mercado e que o mercado está em baixa. Prostitui a moral não por fraqueza, mas por estratégia. Empresta o seu nome para prover hipocrisias ao mundo porque sabe, com uma sabedoria que deixaria rubros os filósofos, que o mundo não recompensa a coerência: recompensa a apresentação dela, o show, o espetáculo de falas gritadas e cuspidas.
A diferença entre o cínico e o idiota útil é sutil e devastadora: o cínico sabe que mente e carrega isso como um peso qualquer. O outro sequer carrega este peso.
E existe coragem sim nisso, convém admitir.
A coragem de repetir em público asneiras que a própria consciência já há muito entendeu como ridículas.
De defender o indefensável com a voz firme de quem acredita, ou de quem aprendeu que acreditar e parecer acreditar produzem os mesmos efeitos práticos.
O que resta a quem recusa esse pacto apodrecido? Talvez apenas a solidão higiênica de quem não se vendeu, que é um consolo bonito demais para ser real e amargo demais para ser suficiente.
O mundo segue, premiando os mansos que sabem se curvar sem barulho, sem resistência, reservando para os lúcidos, apenas o troféu barato de ver uma geração desabar em podridão e mentiras, e dependendo da sua ambição nesta vida, é o suficiente.


