top of page

WILIAN MARQUES

Petit Comité


O sol da tarde não incendeia, apenas ilumina com desdém o palco principal de nossos dias comuns: a calçada defronte à padaria cujo aroma é uma epifania diária e uma pequena traição. Aquele cheiro de pão quente e macio, um embuste que se desfaz duro e seco dentro do saquinho amarrotado, é o símbolo perfeito de nossa condição.

Ali, na calçada rachada, está a sede não oficial do mais democrático dos clubes, aquele para o qual somos recrutados ao nascer, o Clube dos Idiotas. Somos a legião dos que empurram portas automáticas, dos que discursam sobre o país com base nos vídeos de 30 segundos, compartilhados em frenesi, dos que reclamam do preço do mundo, mas pagam, para parecer que podem. A cidade nos observa, um organismo vivo e cínico, enquanto ensaiamos nossa coreografia de pequenos enganos, convictos de que somos os heróis solitários de um roteiro original.

Internamente, o Clube opera sob um regulamento não escrito de vaidades minúsculas.

A presidência é ocupada, em rodízio constante, por quem conversa em altos brados no celular, inflando a própria importância em diálogos forjados. A vice-presidência cabe ao motorista que desafia placas e convenções, estacionando seu cavalo de aço onde bem entende, sempre com a desculpa pronta da urgência inventada.

Como sócio fiel, testemunho o dia a dia deste microcosmo: o egoísmo de ocupar o banco vago com a mochila, a arte de furar a fila com um sorriso de piedade, a guerra santa travada no trânsito por um espaço de alguns metros. É o nosso jeito de construir castelos na areia da rotina, de erguer, com gestos de falsa autoridade, uma barreira frágil contra o anonimato que nos consome. Buzinamos não para o outro, mas para nós mesmos, num grito de existência.

Com o cair da noite, a cerimônia secreta do Clube se interioriza. A idiotice acende as telas. Escrevemos mensagens cuidadosas para quem já nos ignora, alimentamos ódios por pessoas que nem lembram nosso nome, compramos online tralhas brilhantes que prometem preencher um vazio que só cresce, lapidamos textos titânicos para vencer querelas virtuais.

É o ritual do desperdício: de tempo, de sentimentos, de vida. Tudo para mascarar o silêncio e a insignificância, numa luta travada pelo holofote da fama temporária. Sigamos sócios do Clube, uns beneméritos, outros por ocasião, mas todos assíduos.

 
 
PANORAMA 33.png

Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

LOGOS JORNAL SITE_edited.png
  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
  • TikTok
  • Telegram
  • X
bottom of page