WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 1 dia
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Fatídico
O sabiá morreu. Tombou na pedra dura como um verso rasgado do poema cotidiano, fuzilado por um para-brisa apressado, suas penas outrora avermelhadas, agora formavam uma pequena mancha triste à margem de uma praça qualquer.
Os passantes criavam rotas de indiferença ao redor do corpo diminuto, dominados pela pressa cega que caracteriza nossas manhãs mundanas.
Apenas um menino de uniforme escolar parou, seus sapatos novos quase tocando as asas alquebradas, seu olhar durou o tempo exato que um semáforo leva para abrir, depois seguiu arrastado pelo rito humano incessante que flui rumo ao futuro.
E eu, que observava tudo à distância, senti que aquela cena tinha o peso simbólico de um presságio. Parecia anunciar o que perdemos diariamente sem perceber: a capacidade de reconhecer a delicadeza interrompida do mundo. O sabiá, outrora emissário de auroras, tornava-se agora apenas mais um resíduo no mosaico urbano que aprendemos a ignorar.
Na livraria da esquina, os livros permaneciam intocados como relíquias de outro tempo. Um homem folheava páginas com uma mão enquanto rolava a tela do celular com a outra, gesto perfeito de nossa esquizofrenia contemporânea. No mundo ao redor, jovens consumiam imagens velozes em telas brilhantes, coreografias feitas para encantar quem não deseja pensar. A quietude das páginas não abertas ecoava pelas bibliotecas como um luto discreto. A linguagem havia se esvaziado de seu encanto, reduzida a mensagens fragmentadas, mentiras bem contadas que não demandam entendimento, apenas compartilhamento.
Ao anoitecer, retornei ao local vazio onde o sabiá caíra. Nas janelas dos edifícios, luzes azuladas tremeluziam como vagalumes artificiais. De um carro em movimento, vieram os sons da modernidade, batidas frenéticas e letras monossilábicas que sepultavam violentamente os silêncios. Mas então, sob o ruído da cidade, percebi o sussurro das árvores balançando no vento noturno. Elas continuavam seu ciclo eterno, indiferentes à nossa surdez progressiva.
Enquanto houver raízes sob o asfalto e galhos ao céu, a possibilidade do canto permanecerá. A natureza não precisa de nossa atenção para existir, e nesse pensamento residia tanto consolo quanto humilhação.








