WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 11 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Tinta
Escrever é um ato de egoísmo disfarçado de partilha. É a conversa mais sincera que eu consigo ter contigo caro leitor, enquanto o mundo lá fora acha que somos estranhos um ao outro.
A mão no papel, ou os dedos no teclado, insistem como um coração teimoso, batendo no peito. Procuram uma fresta, só uma, por onde aquilo que somos de verdade possa escapar, sem alarde. Por isso, quando alguém me diz “eu li seu texto”, sinto um susto doce. Um ruído no ar. É como se tivessem entrado no meu quarto vazio e sentado na cadeira da minha escrivaninha, mexendo nos papeis que eu jurei ter guardado. A palavra, que eu achava tão minha, sai por aí fazendo bons amigos, contando segredos meus. E eu fico com aquele calor no rosto, de quem foi pego cantando desafinado no banheiro.
A verdade é que a gente nunca controla de verdade o que escreve. A frase começa bem-comportada, mas logo pula a cerca e sai correndo, seguindo caminhos que nossa razão tem medo de pisar. Eu sento para colocar ordem no pensamento, e é o pensamento que me leva pela mão para lugares esquecidos, conversas que deixei pela metade, verdades que eu mesmo evito. Aí está a beleza e o susto: quem lê não encontra só as ideias que eu preparei com cuidado.
Encontra também as que escaparam, fugidias pela fresta da mente. O leitor vira, sem querer, cúmplice dos meus tropeços. Testemunha da bagunça que eu tento arrumar antes que alguém veja.
E é assim que funciona: eu escrevo tentando me entender, e de repente sou entendido por alguém que não conheço. Alguém que, lendo minhas linhas, entende coisas suas. É um milagre comum, mas belíssimo.
No fim das contas, escrever é abrir a porta da frente e ficar na esperança, meio ansioso, meio esperançoso, de que alguém lhe visite. É deixar que a palavra tenha sua própria vida, mesmo que isso signifique perder um pouco do conforto de ficar escondido.
Descobrir que fui lido me dá uma mistura esquisita de vergonha e gratidão. Parece que alguém achou uma carta minha, endereçada “para quem quiser ler”, e não só leu como sentou e escreveu uma resposta sincera. E nesse gesto simples, de escrever para se encontrar e acabar encontrando o outro, a gente descobre que precisa da tinta dos outros, para escrever a própria história.








