WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 18 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Dingobéu
No sul do Brasil tropical, o espírito natalino surge suado, fora de prumo e de controle.
Dezembro chega bêbado de sol, com vitrines piscando promessas e vendedores oferecendo felicidade multi parcelada.
O asfalto ferve, a cerveja sua, o vinho esquenta e alguém insiste em cantar versos sobre neve enquanto abana o rosto com um panfleto de loja. Há uma alegria ruidosa, meio cafajeste, que se espalha pelos lares, pelas calçadas e pelos escritórios, já em modo de sobrevivência. A cidade cheira a salpicão, protetor solar e ansiedade.
Entre um gole e outro, falamos de paz, de amor, de perdão, mas brigamos por vagas, por sombra e por atenção.
Ainda assim, algo vibra.
Um riso fácil, um excesso tolerado, a sensação vaga de que vale exagerar, amar um pouco mais antes do ano cobrar a conta.
No meio desse caldo, observo os personagens. O tio que bebe demais e vira filósofo. A moça que promete mudar de vida em janeiro. O casal que briga baixo para manter a decoração natalina intacta. Crianças disputam dopamina em telas luminosas, enquanto os adultos ensaiam nostalgia.
O Natal aqui não pede pureza, pede presença. É boêmio, falho, barulhento.
Mistura missa e churrasco, promessa e ressaca, maionese e peru, ou melhor, chester, que é mais barato. Há beleza no improviso, na música torta, na comida compartilhada sem liturgia.
A decadência também senta à mesa, mas paga a própria bebida. Entre uma piada indecente e um abraço suado, o Natal avança, sustentado por esse pacto informal de alegria possível.
Quando a noite cai, sobra um silêncio morno. As luzes piscam cansadas, os bares fecham sem glória, e o mundo recolhe seus exageros. Não houve milagre nem redenção. Houve convivência. Penso que o espírito natalino, por aqui, não salva, apenas acompanha, redimi. Ele anda ao lado, tropeça, ri, aceita o mundo do jeito que dá. E nessa aceitação imperfeita, quase indecente, encontro uma ternura discreta. Não é lição, é constatação. Amanhã tudo segue, e o ano ainda vai acabar em barulho e folia. Hoje, estivemos juntos. Isso basta para atravessar a noite quente, ruidosa e humana, sem promessas, sem culpa, apenas vivos e atentos, respirando alívio. E seguimos, suados, rindo do caos, com fé curta e vontade honesta de continuar juntos.


