WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 4 dias
- 2 min de leitura
Anunciação
Fevereiro se anunciou sem trombetas, apenas um deslocamento quase imperceptível no ar do dia a dia, e quando percebi já estava dentro do ano, correndo, como quem acorda no meio de uma conversa importante e tenta acompanhar. A vida não chegou, avançou. O tempo acelerou com a naturalidade de algo que sempre esteve fora de controle, e o mundo pareceu aceitar essa corrida como um acordo tácito. Há cheiros misturados de umidade, metal e promessas, sons sobrepostos que não pedem atenção, apenas passagem. Tudo muda rápido demais, até o que parecia sólido, e a paisagem se reorganiza sem pedir opinião. Não há centro fixo, só um movimento contínuo que empurra os dias para frente, enquanto a memória tenta acompanhar, tropeçando em detalhes mínimos, quase invisíveis, mas persistentes.
No meio dessa engrenagem veloz, o pensamento ganha um tom metafórico, não por tristeza, mas por lucidez. A beleza aparece nos intervalos, naquilo que não foi pensado para durar, e a decadência se revela no excesso de intenção planejada. Rotina e surpresa se confundem, pois até o inesperado passou a obedecer a certa regularidade cansada. O cotidiano produz seus pequenos absurdos silenciosos, e eles não pedem riso alto, apenas um canto de boca torto, um sorriso amarelo. Há uma ironia discreta em perceber que o novo já nasce gasto, e que a pressa não economiza nada, apenas consome. O mundo gira mais rápido, mas o viver, continua andando a pé.
No fim do dia, quando o barulho se acomoda e o pensamento perde a nitidez, resta essa esperança quase constrangedora de melhorar a vida. Ela não se explica, não se justifica, não promete resultados. Permanece. Tudo ao redor parece provisório, instável, em reforma permanente, mas essa expectativa frágil insiste em atravessar o calendário ilesa. Talvez seja isso que sobra quando o ano começa atropelando e a mudança se impõe sem aviso. Uma confiança ínfima, porém firme, de que ainda vale ficar, observar, aceitar, tentar. Não para aprender algo, mas para seguir, com uma ternura que não pede aplauso nem resposta, mas confiança. E nisso há uma forma discreta de resistência, quase invisível, mas suficiente para atravessar mais um recomeço.








