WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 9 horas
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Confete
A noite desaba em purpurina sobre o descampado onde a cidade termina e o nada começa. Os trompetes ainda vibram no ouvido, mas já não há ninguém segurando o estandarte. E agora, José. A festa evaporou no ar quente, o estandarte virou pano de chão, os deuses de espuma voltaram para as caixas de plástico. O Brasil, esse animal fabuloso, dorme com tinta e purpurina na cara e acorda com dívida no nome. Ainda assim respira fundo. Ainda assim ri. Não é ingenuidade, é método de sobrevivência. O riso aqui é ferramenta, pá que cava frestas frescas no concreto quente do dia.
E agora, José? A bateria calou a boca, mas teu peito continua roncando feito tambor. Olha a mulher recolhendo as próprias asas de lantejoula, prendendo o cabelo pra encarar o ônibus cheiroso de gente trabalhadora. Olha o menino que guardou confete no bolso e agora divide o pão com o irmão. Olha o operário que sambou no asfalto e hoje levanta parede no mesmo balanço. Nós somos isso: mistura de euforia com ferrugem, samba com aperto. A alegria aqui não vem pra ficar, vem fazer visita. Mas na visita cabe o mundo. Cabe beijo roubado, perdão sem discurso, futuro que dura um refrão e ainda assim sustenta o ano inteiro.
A festa passou, José. O sol chegou sem maquiagem, escancarando a cara da cidade. Agora é tua vez. Vai com esse sapato gasto e a memória em chamas saudosas. Vai sabendo que a festa é curta, mas ilumina o caminho escuro que nem lanterna de pobre: dura pouco, mas clareia o que precisa. O país se remenda com durex e esperança, levanta da lona com uma ginga que só ele tem. Não tem salvação, tem batucação no peito. A alegria foi embora? Foi. Mas deixou brasa. E é em cima dessa brasa que a gente caminha, pé queimando, olho aceso, inventando de novo esse milagre ordinário de continuar, e bem soprada, essa brasa queima e vira fogo no próximo festejo.
E agora, José? Agora segue. Segue porque não tem outro caminho. Segue porque o show não pode parar, mesmo com a lona furada e o público dormindo. Segue porque amanhã tem outro ensaio, outra purpurina, outra chance de esquecer que a vida aperta. Segue, José. O asfalto continua ali, a cidade também, e entre um e outra tem gente que dança, que chora, que ri sem dente, que ama sem futuro. E essa gente é você. Sempre foi.








