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WILIAN MARQUES

Despudor


As moscas também amam. E fazem isso sem cerimônia, coladas ao vidro da janela, enquanto na sala, a reunião se arrasta com aquela cara de gente que já morreu e ninguém avisou. Problemas mudam de gaveta, vozes disputam palmo de poder, alguém pigarreia pra ver se existe. As moscas, porém, não sabem de nada disso. Estão entregues a um acordo silencioso, antigo, que não pedem autorização nem devolvem pudor. O vidro morno sustenta os corpos mínimos como cama provisória. Há uma calma vulgar nesse gesto insistente, uma confiança cega de que o mundo é só o agora, aquele contato, e pronto.

Elas ficam. O tempo delas não é o nosso. Enquanto a pauta avança e recua, enquanto as ideias já nascem cansadas e vão morrendo antes de sair da sala, as moscas ajustam os passos com precisão de amante experiente. Não há poesia que alcance isso sem estragar tudo. Elas não simbolizam coisa nenhuma. Só estão ali. E nesse estar ignoram tudo o que não interessa. Talvez seja isso que incomode: descobrir que no mesmo segundo cabem realidades que não se cruzam, que não pedem passagem, que seguem completas em si mesmas, indiferentes ao nosso teatrinho.

Quando se separam, não tem drama. Uma fica, outra some, levando adiante um ciclo que não precisa de plateia. A reunião acaba depois, com conclusões inconclusas e um cansaço que parece vir de muitos embates. No vidro, uma história quase invisível, não é vestígio do que passou, é prova de que nunca estivemos sozinhos. Saio com a sensação de que caos e ordem não disputam nada, só se empilham. A vida é isto, e aquilo, e aquilo outro, tudo junto. Mas há também, descubro agora, um engano aí. As moscas não estavam alheias. Apenas ocupavam outro momento, só seu. O amor delas não precisava dos meus olhos. Enquanto a gente se espremia em busca de sentido nas planilhas, problemas e promessas, elas já tinham encontrado o delas naquele atrito miúdo de patas e asas sobre o vidro quente. Não como lição, não como metáfora, como vida ordinária, vulgar, real, completa. E a reunião só não termina porque o verão continua lá fora, pegando fogo, e tem sempre um outro problema nascido e chorando, pedindo atenção.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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