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WILIAN MARQUES

Cotidiano


O trabalho cospe minha alma de volta para a rua, um dia a menos para o aposento. Saio quando a luz já amoleceu as esquinas, pintando tudo de laranja. Fecho a porta e giro a chave no carro. Fico um instante apenas ouvindo meu coração, que parece vir de longe, correndo para me alcançar. As ruas das cidades pequenas se estendem como corredores conhecidos. Três carros à frente, lentos como barcos. Um aceno conhecido atravessa o para-brisa, a senha de um clube de vizinhos onde todos se entendem. A farmácia baixa as portas num bocejo de fim de expediente. O rádio sussurra coisas sem pressa, mas é só paisagem sonora. Meus pensamentos já dobraram a esquina antes de mim. Penso nas janelas de casa, nas arvores da rua, nas flores dos teus canteiros. Penso nesse trajeto miúdo e percebo: é uma ponte. Uma ponte entre o homem que cansa e o homem que vive. No banco de trás, as sacolas de compras, amorosamente escolhidas, deslizam nas curvas. Dentro delas, pão, frutas, queijo, suco e um docinho. Dentro de mim, levo intenções. Levo a vontade de chegar.A estrada vira rua, a rua vira jardim, o jardim vira porta, e a porta, vira aconchego. Antes de estacionar, já sou acolhido. Primeiro um latido fino. Depois, uma doce algazarra. E o alerta vira festa, uma sinfonia de latidos, uivos e rabos que são hélices. Desligo o motor. Fico ouvindo. É para mim aquela loucura. Em que outro lugar me esperam com tanta euforia? Abro o portão e eles irrompem, redemoinho de pelos e línguas, como se eu tivesse voltado de uma guerra, não de oito horas de expediente. A porta se escancara e o interior me engole num abraço. Deixo as chaves na mesa. Lavo as mãos. Observo a sala, o seu calor de coisa vivida, sua bagunça convidativa. Me aninho na cozinha e começo a preparar a minha alquimia gastronômica. Os gestos são lentos por puro prazer de permanecer. A cebola dourando é o incenso da nossa religião doméstica. Os cachorros deitam perto, aguardando. Então você aparece no vão da porta. Apenas surge e sorri. É nesse sorriso que o mundo se ajeita. A última peça se encaixa sem esforço. Sentamos, comemos, conversamos sobre tudo e nada. Lá fora, a cidade diminui. Aqui dentro, tudo encontra lugar. E nesse movimento simples de ir para poder voltar, descubro uma doçura mansa que não precisa ser dita. Ela apenas está. Como a luz que se apaga. Como a certeza de que amanhã a ponte será cruzada mais uma vez.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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