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WILIAN MARQUES

há 3 horas
2 min de leitura

Moscou 106


O hotel ficava próximo ao mar. À noite, o vento vinha forte, batendo nas portas de vidro e empurrando o sal para dentro do saguão e agitando nervosamente as bandeiras do lado de fora. Eu havia chegado cansado a recepção, depois de um dia inteiro de trabalho e estrada, havia já feito todo o processo de entrada, falando o básico, poucas palavras, olhar distante. Mais tarde, desci para buscar a comida que eu havia pedido, telefone na orelha, ainda resolvendo questões de trabalho. Vestia uma jaqueta preta, com a gola levantada até quase o queixo. Falava baixo, tremendo de frio e meio rouco, o que se ouvia bem poderia parecer russo, ou qualquer outra destas línguas que se fala entre dentes. Atravessei o saguão sem olhar muito para ninguém. O recepcionista levantou os olhos. “Boa noite, Sr. Wilian Marques.” Achei estranho. Ele dizia meu nome completo. Não Wilian. Wilian Marques. Com uma solenidade discreta, usada para anunciar um morto ou uma autoridade qualquer. No dia seguinte, desci outra vez. O vento fazia um ruído menos comprido do lado de fora e o sol brilhava. “Bom dia, Sr. Wilian Marques.” Fui buscar meu almoço. Na volta, ele continuou me olhando. Não era medo. Era curiosidade. Talvez desconfiança, aquela irmã pobre da curiosidade. Perguntei se estava tudo bem. Ele hesitou. Disse que “tudo tranquilo”. Depois riu, sem muita vontade. “É que o senhor me lembra um personagem.” “Que personagem?” Ele não soube responder na hora. Era de um livro que havia lido muitos anos antes. Um romance de espionagem. “Não lembro o nome. Mas era bem assim.” Assim como? Jaqueta preta, gola levantada, poucas palavras, telefonemas em voz baixa, língua estrangeira. Um sujeito que aparecia no hotel, recebia alguma coisa em uma pasta e desaparecia. Eu olhei para a sacola da comida. “Hoje recebi comida árabe.” Ele riu. Dessa vez eu também.

Subi para o quarto com a sensação de ter decepcionado a literatura. Eu era apenas um funcionário público em viagem de trabalho, carregando documentos, compromissos e uma fome atrasada. Nenhuma maleta com fundo falso. Nenhum passaporte em nome de outro homem. Nenhuma mulher misteriosa esperando no bar com informações privilegiadas. Só uma cama de hotel, o mar escuro atrás da janela e o vento batendo no prédio. Ainda assim, na manhã seguinte, quando entreguei a chave, ele disse: “Até logo, Sr. Wilian Marques.” E por um segundo quase lamentei não ter uma identidade secreta. Saí com a mala e o crachá escondido na mochila. O mar estava ali, enorme e inútil para guardar segredos. Atrás de mim, o atendente devia imaginar que eu seguia para alguma missão secreta. Fui para uma reunião às 14h. Talvez seja isso que resta de aventura depois dos quarenta: alguém, por engano, acreditar que você é mais perigoso do que realmente é.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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