top of page

WILIAN MARQUES

Granítica


O rio não é bonito. Ninguém vai fotografar o rio. Ele passa pela cidade meio encabulado, enferrujado, escuro de sedimento, sem orgulho e agonizando. E mesmo assim tem gente que mora de frente para ele, que abre a janela de manhã e olha, e fica. Não porque o rio seja bonito. Porque é o rio foi, é, e sempre será daqui. Tem algo nessa cidade que não se explica bem em qualquer conversa rasa, em folder ou folhetim. Urussanga não é a cidade que vive nos noticiários, seja para coisa boa ou para coisa ruim. Ela existe num volume médio, numa frequência que as grandes cidades não captam.

Paralelepípedo de granito numa rua, asfalto remendado na outra, uma praça que todo mundo tem opinião sobre seu uso, mas que todo mundo usa assim mesmo, do jeito que está. A Igreja Matriz que olha tudo de cima com paciência de quem já viu muita discussão, de vereador, de prefeito, de especialista de porta de bodega, de muita procissão, e sabe que tudo passa. Quem fica aqui faz uma escolha que não é óbvia. Não é a cidade que te dá emprego garantido, nem a que tem shopping brilhante com cartazes gritando promoções, nem a que aparece nas listas de melhor qualidade de vida, feitas por gente que nunca pisou aqui. Quem fica é porque quis.

Ou porque foi ficando e um dia percebeu que já era tarde para querer outra coisa, e o encanto da grandiosidade de pequenos lugares, se fez. Há uma teimosia específica nesse nosso povo que não tem nome científico, mas que você só de bater o olho, reconhece. É a teimosia de quem planta uva frágil num solo difícil, espera anos, e depois serve um vinho que arranca suspiro, mas que a gente chama de nosso sem muito brio. É a teimosia de quem reforma a casa velha em vez de derrubar, e faz isso magistralmente, de quem abre negócio na rua que está morrendo, e prospera, de quem acredita que o centro é vivo, e ele é, quando se enfeita e se enche de corações e olhos festejando e vivendo a cidade. Cento e quarenta e oito anos não tornaram Urussanga grande. Tornaram ela persistente. E tem uma diferença entre as duas coisas que só se entende morando numa cidade assim: grande é o que se vê de fora, persistente é o que sustenta por dentro.

Por que Urussanga? Talvez esta seja a pergunta errada. A certa talvez seja outra: por que não? Por que não uma cidade que ainda tem silêncio às dez da noite, que ainda tem vizinho que sabe seu nome, que o sino tocas as horas, que ainda tem festa que para o trânsito e quase ninguém reclama porque todo mundo está na festa? Por que não um lugar onde a esperança não é ingenuidade, é uma técnica aprendida na prática, geração após geração, de fazer acontecer com o que se tem? Por que não amar um lugar que transforma simples grãos de milho em alimento vivo e cultural? Que cola pedrinhas e transforma cacos em arte belíssima? Que celebra padroeiro com festa no barracão, churrasco e roleta?

O rio continua feio. A praça continua cheia de opinião. E a cidade segue, teimosa e viva, e os 148 anos são só o começo de uma longa conversa que está bem longe de terminar...

PANORAMA 33.png

Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

LOGOS JORNAL SITE_edited.png
  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
  • TikTok
  • Telegram
  • X
bottom of page