WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 14 de mai.
- 2 min de leitura
Maré
O mar não se importa de mudar de humor. De manhã ainda é aquela coisa preguiçosa de porto calmo, água turva entre os cascos dos barcos que baloiçam, reflexo de nuvens que não tem pressa de ser nenhuma figura imaginada. A calmaria tem um cheiro particular, misto de maresia velha e madeira encharcada, de corda molhada e salgada enrolada em meses de subserviência. Os pescadores reconhecem esse cheiro. Sabem que ele mente. Toda calmaria é apenas uma tempestade sem pressa de acontecer. Hemingway entendeu isso e nunca gostou muito de explicar, que o mar não é cenário, é um personagem, e um personagem difícil, desses que mudam a fala no meio da cena sem avisar o diretor, improvisam, chocam. O homem que o enfrentou sozinho num barco pequeno não o dominou. Aprendeu, no máximo, a não virar as costas as suas ondas.
À tarde, o vento chegou como uma brisa de poucos arroubos. A proa estremeceu primeiro, depois o calado inteiro tremeu, e havia naquele baque uma melodia surda, grave, que não cabe em partitura nenhuma, só no corpo de quem está em pé no convés. A tempestade não é bela de perto, não há poesia. É barulhenta, salgada, nauseante, absolutamente indiferente à coragem ou ao medo de quem atravessa. Ela ensina uma coisa só, que navegar não é chegar, é o movimento entre sair e o encontrar algum lugar que ainda não tem nome no mapa. Perder-se não é fracasso, é ocasião, é vida, é dor e alegria. O horizonte, naquelas horas, some, e o que resta é apenas a certeza estranha de que o barco ainda flutua, que o vento ainda sopra e empurra, que algum porto existe mesmo sem ser visto. Quando a noite deitou brumas, o mar voltou ao silêncio anterior, como se nada daquilo tivesse acontecido. A água escura de novo, o reflexo das estrelas tremendo sem nenhuma grandiosidade poética. Ficou ali, quieto, esse animal imenso que respira por debaixo. É isso, não há como amar o mar manso sem ter sobrevivido ao bravio, assim como não há como reconhecer a paz sem ter carregado o peso do vento fugaz. A vida toda cabe nessa navegação, na oscilação entre o porto e o largo, entre o conforto da âncora e o medo que parece, por insistência, ir virando rota.


