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WILIAN MARQUES

Forasteiro


Vi um alienígena ontem. Quinze anos, talvez catorze, caminhava pela calçada com uma margarida na mão, não uma flor comprada em banca, uma flor achada, do tipo que nasce teimosa entre frestas de muros, e ele sorria para ela. Sorria para a flor.

Num dia de segunda-feira, num mundo que aprendeu a ter pressa até para adoecer, num país onde se faz curso para aprender a ser homem e se esquece, com ignorância notável, de educar-se para ser humano. Fiquei parado. Não de admiração. De um estranhamento profundo. Porque há muito, o sorriso gratuito virou gesto suspeito, e uma flor carregada por um menino de mãos grandes demais para a idade parece coisa fora de lugar, quase indecente, quase um erro de protocolo nesse planeta que corre demais para perceber o que brota nos seus próprios pés.

O mundo está com muita pressa de endurecer seus meninos. Há cursos para isso, tutoriais, ritos de passagem digitais onde se aprende a não chorar, a não se encantar, a consumir em vez de contemplar.

Ensinam o rapaz a ser homem antes de ensiná-lo a ser gente. A fazer a barba antes de aprender a escutar a chuva. A ter atitude antes de ter afeto.

Ninguém abre inscrições para curso de assombro, de pausa, de olhar devagar para o que nasce caprichosamente entre pedras. O resultado é previsível e desolador: uma geração inteira aprendeu a desfilar pela vida com a cara fechada e esnobe de quem sabe de tudo, quando o que sabe, no fundo, é apenas o suficiente para não se perder no próprio vazio que ela mesma ajudou a construir.

Mas ali estava ele, o pária florido, atravessando a calçada com a margarida e o sorriso, completamente alheio à sentença tácita de um mundo endurecido, apodrecido. Não sabia ele o quanto era corajoso.

Provavelmente nunca vai saber, e talvez seja essa a graça exata: a inconsciência do gesto verdadeiro, que não pede plateia nem aprovação de ninguém.

Fui embora carregando aquela imagem pequena, aquela flor amarela e tola numa mão jovem, e pensei que a humanidade talvez não esteja tão perdida quando penso eu. Apenas distraída, correndo demais para notar o que ainda floresce, teimoso, entre as próprias rachaduras.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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