WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 4 horas
- 2 min de leitura
Gáudio
A pessoa ria muito. Assim, à toa, de dente aberto, o tipo de riso que constrange os outros à mesa porque é largo demais, ocupa o espaço dos vizinhos, vibra no ar como coisa errada na hora certa. Era um sabado qualquer, choveu logo cedo, e num bar também qualquer, à beira de uma estrada movimentada, o sujeito ria. Não havia motivo aparente. O dia estava frio e cinza, o homem ao seu lado mexia no celular, a televisão no canto transmitia músicas chiadas, de tons desafinados, de estilos misturados. Mas ele ria, com aquela largura de quem já esqueceu que existe plateia ou decidiu, por um instante, ser mais honesto do que o combinado com o destino. Eu, do meu posto cotidiano, percebi com algum atraso, que testemunhava algo para o qual a nossa língua não tem nome bom.
O riso humano é mentiroso por natureza. Carrega dentro de si o que a educação proíbe dizer em voz alta: que a gente está aqui, vivo, com fome, com medo, com contas vencendo na segunda, e que isso, apesar de tudo, tem uma graça absurda e insuportável. O bodegueiro também ria, fazendo um coro ensaiado, cinemático e de respeito profissional, ria e beba, mas beba. Mas ele talvez não soubesse que sabia. O riso é o único choro que a civilização ainda aplaude sem cerimônia. Inventamos a festa para ter licença de desabar sem parecer que desabamos, existe festejo porque existe tristeza. O carnaval, o casamento, a formatura, são cercas bem pintadas ao redor do mesmo buraco fundo, a rotina mundana. Celebra-se porque dói. E dói mais porque há tanto a celebrar.
Ele parou de rir de repente. Não porque algo ocorreu, mas porque o riso esgota, tem fôlego curto, envelhece rápido dentro da boca. Olhou para o salão encardido, o asfalto encharcado lá fora, o asfalto sem paciência para as coisas que não têm pressa de acabar. O homem do celular levantou, seguiu sua vida, entre obras e desculpas esfarrapadas, guerras falsas. Ele respondeu com gesto vago, metade aceno, metade rendição, e voltou ao refri já quente. Terminei meus erviço sem pressa, deixei um prato um pouco mais cheio de beliscos na mesa. Saí. A chuva havia parado, mas o cheiro dela ainda estava em tudo, essa memória úmida de terra que recebeu água e vai secando devagar. Igual a gente.


