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WILIAN MARQUES
Cotidiano O trabalho cospe minha alma de volta para a rua, um dia a menos para o aposento. Saio quando a luz já amoleceu as esquinas, pintando tudo de laranja. Fecho a porta e giro a chave no carro. Fico um instante apenas ouvindo meu coração, que parece vir de longe, correndo para me alcançar. As ruas das cidades pequenas se estendem como corredores conhecidos. Três carros à frente, lentos como barcos. Um aceno conhecido atravessa o para-brisa, a senha de um clube de vizinho
há 6 dias


WILIAN MARQUES
Confete A noite desaba em purpurina sobre o descampado onde a cidade termina e o nada começa. Os trompetes ainda vibram no ouvido, mas já não há ninguém segurando o estandarte. E agora, José. A festa evaporou no ar quente, o estandarte virou pano de chão, os deuses de espuma voltaram para as caixas de plástico. O Brasil, esse animal fabuloso, dorme com tinta e purpurina na cara e acorda com dívida no nome. Ainda assim respira fundo. Ainda assim ri. Não é ingenuidade, é méto
19 de fev.


WILIAN MARQUES
Despudor As moscas também amam. E fazem isso sem cerimônia, coladas ao vidro da janela, enquanto na sala, a reunião se arrasta com aquela cara de gente que já morreu e ninguém avisou. Problemas mudam de gaveta, vozes disputam palmo de poder, alguém pigarreia pra ver se existe. As moscas, porém, não sabem de nada disso. Estão entregues a um acordo silencioso, antigo, que não pedem autorização nem devolvem pudor. O vidro morno sustenta os corpos mínimos como cama provisória. Há
12 de fev.
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