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WILIAN MARQUES
Gáudio A pessoa ria muito. Assim, à toa, de dente aberto, o tipo de riso que constrange os outros à mesa porque é largo demais, ocupa o espaço dos vizinhos, vibra no ar como coisa errada na hora certa. Era um sabado qualquer, choveu logo cedo, e num bar também qualquer, à beira de uma estrada movimentada, o sujeito ria. Não havia motivo aparente. O dia estava frio e cinza, o homem ao seu lado mexia no celular, a televisão no canto transmitia músicas chiadas, de tons desafinad


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Retrovisor Tem uma hora do dia, quase sempre fim de tarde, quando a luz muda de intenção e intensidade, em que o mundo para de ser presente e vira lembrança ainda acontecendo, existindo, nascendo. Um cheiro de chuva em asfalto quente. O barulho de uma geladeira antiga. Uma música que ninguém mais ouve, mas que alguém, em algum lugar, está ouvindo agora, sozinho, com os olhos fechados e o coração palpitando. A nostalgia não avisa. Ela não bate à porta. Ela já estava dentro, gu


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Desamor Abril em São Paulo não cheira a nada. A rua era estreita, o prédio novo, bonito com aquela beleza de coisa pré-fabricada que envelhece antes de secar a tinta. Fachada de vidro fumê, lobby com pedra cinza e uma planta que ninguém plantou. Subi, deixei a mala, deitei, apaguei a luz. Foi aí que eles começaram. Lá do apartamento de cima, com a pontualidade de quem já perdeu a esperança, mas não perdeu o horário. Ele falou de dinheiro. Ela respondeu com aquele silêncio que


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Insípido Hoje o céu estava bonito demais para ser útil. Daquele azul tempestuoso, belo, mas sem intenção, cheio de nuvens dramáticas, varrido de eventos errantes, limpo de qualquer metáfora aproveitável. O café ficou no ponto certo, a temperatura era exatamente a que o corpo pede, e até o cachorro do vizinho optou pelo silêncio. Serei honesto: não aconteceu absolutamente nada. Um caminhão passou. Uma criança passou de bicicleta mais rápido que o caminhão. A tarde inteira desl


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Janus Há uma mentira que o mundo repete com tanta convicção que acabou virando verdade. Ou o que cada um chama de verdade. Dizem por aí, nas conversas de calçada, nas mesas de bar, nos corredores das igrejas e das repartições, que fulano fez isso, que sicrano disse aquilo, que as coisas são assim e não podem ser de outro jeito. E todos concordam. E todos discordam. E ninguém percebe que estão falando de si mesmos o tempo todo. A verdade, essa senhora tão venerada, é filha úni


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Singular Na sexta-feira, éramos absurdos. Fantasiados de coisa nenhuma, em um baile de carnaval qualquer, afoitos e bailantes, inebriados de momento, com alegrias baratas e com a euforia secreta de quem sabe que faz algo desnecessário e faz assim mesmo, por pura afirmação da própria alegria. Você ria do meu jeito torto de dançar. Eu ria do seu. A bebida estava morna, aguada, a banda desafinava na nota mais dramática, e havia entre nós aquela cumplicidade preciosa de dois jove


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Folguedo O festejo subia o morro com uma lentidão de procissão, e a festa, meu caro, era uma dessas coisas que a gente, que dorme cedo, vê e desconfia, tudo muito limpo, muito certinho, muito jovem, como se a vida tivesse passado verniz onde devia ter suor. As luzes brancas recortavam o entardecer com uma precisão de alfaiate, e os copos e corpos primaveris, balouçantes e brincantes, pareciam que tinham medo de cair no ácido do tempo. O ar cheirava a perfume da moda, novidade


WILIAN MARQUES
Ensaio O velho na pedra, e o mar a dançar as ondas vão, entre ir e voltar ele foi menino, corria no chão agora é salitre, cal nos ossos, imensidão O mar não pergunta se pode chegar só vem, só quebra, faz recuar a vida da gente é esse vai e vem onda que avança, onda que convém Cada onda nova é começo de mar cada onda antiga é um pouco de pesar o velho aprendeu na pedra a lição viver é ir viver é voltar, imensidão Já teve tempestade, já perdeu o céu já viu o vento levar pedra e


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Lapso Em Urussanga, a gente descobre que envelhecer tem seu próprio ofício. Começa quando o sino da matriz, que na infância mandava na pressa da cidade inteira, agora espalha um som morno sobre as telhas, como quem perdeu a autoridade sobre nossos passos, e as vezes, nem tocar toca, perdemos o Angelus. Ando pelas ruas agora lajotadas, de passado poeirento, cruzo apenas com buzinas e faróis, fachadas angustiadas por atenção, luzes e letras agigantadas, famintas.Pois ando e vou


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Cotidiano O trabalho cospe minha alma de volta para a rua, um dia a menos para o aposento. Saio quando a luz já amoleceu as esquinas, pintando tudo de laranja. Fecho a porta e giro a chave no carro. Fico um instante apenas ouvindo meu coração, que parece vir de longe, correndo para me alcançar. As ruas das cidades pequenas se estendem como corredores conhecidos. Três carros à frente, lentos como barcos. Um aceno conhecido atravessa o para-brisa, a senha de um clube de vizinho


WILIAN MARQUES
Confete A noite desaba em purpurina sobre o descampado onde a cidade termina e o nada começa. Os trompetes ainda vibram no ouvido, mas já não há ninguém segurando o estandarte. E agora, José. A festa evaporou no ar quente, o estandarte virou pano de chão, os deuses de espuma voltaram para as caixas de plástico. O Brasil, esse animal fabuloso, dorme com tinta e purpurina na cara e acorda com dívida no nome. Ainda assim respira fundo. Ainda assim ri. Não é ingenuidade, é méto


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Despudor As moscas também amam. E fazem isso sem cerimônia, coladas ao vidro da janela, enquanto na sala, a reunião se arrasta com aquela cara de gente que já morreu e ninguém avisou. Problemas mudam de gaveta, vozes disputam palmo de poder, alguém pigarreia pra ver se existe. As moscas, porém, não sabem de nada disso. Estão entregues a um acordo silencioso, antigo, que não pedem autorização nem devolvem pudor. O vidro morno sustenta os corpos mínimos como cama provisória. Há


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Anunciação Fevereiro se anunciou sem trombetas, apenas um deslocamento quase imperceptível no ar do dia a dia, e quando percebi já estava dentro do ano, correndo, como quem acorda no meio de uma conversa importante e tenta acompanhar. A vida não chegou, avançou. O tempo acelerou com a naturalidade de algo que sempre esteve fora de controle, e o mundo pareceu aceitar essa corrida como um acordo tácito. Há cheiros misturados de umidade, metal e promessas, sons sobrepostos que n


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Dingobéu No sul do Brasil tropical, o espírito natalino surge suado, fora de prumo e de controle. Dezembro chega bêbado de sol, com vitrines piscando promessas e vendedores oferecendo felicidade multi parcelada. O asfalto ferve, a cerveja sua, o vinho esquenta e alguém insiste em cantar versos sobre neve enquanto abana o rosto com um panfleto de loja. Há uma alegria ruidosa, meio cafajeste, que se espalha pelos lares, pelas calçadas e pelos escritórios, já em modo de sobrevi


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Tinta Escrever é um ato de egoísmo disfarçado de partilha. É a conversa mais sincera que eu consigo ter contigo caro leitor, enquanto o mundo lá fora acha que somos estranhos um ao outro. A mão no papel, ou os dedos no teclado, insistem como um coração teimoso, batendo no peito. Procuram uma fresta, só uma, por onde aquilo que somos de verdade possa escapar, sem alarde. Por isso, quando alguém me diz “eu li seu texto”, sinto um susto doce. Um ruído no ar. É como se tivessem e


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Petit Comité O sol da tarde não incendeia, apenas ilumina com desdém o palco principal de nossos dias comuns: a calçada defronte à padaria cujo aroma é uma epifania diária e uma pequena traição. Aquele cheiro de pão quente e macio, um embuste que se desfaz duro e seco dentro do saquinho amarrotado, é o símbolo perfeito de nossa condição. Ali, na calçada rachada, está a sede não oficial do mais democrático dos clubes, aquele para o qual somos recrutados ao nascer, o Clube dos


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Fatídico O sabiá morreu. Tombou na pedra dura como um verso rasgado do poema cotidiano, fuzilado por um para-brisa apressado, suas penas outrora avermelhadas, agora formavam uma pequena mancha triste à margem de uma praça qualquer. Os passantes criavam rotas de indiferença ao redor do corpo diminuto, dominados pela pressa cega que caracteriza nossas manhãs mundanas. Apenas um menino de uniforme escolar parou, seus sapatos novos quase tocando as asas alquebradas, seu olhar dur


WILIAN MARQUES
Inerte O mundo é como um grande organismo respirando em ritmo lento, um teatro do absurdo onde todos representavam papéis sérios demais para o roteiro cômico que lhes fora dado. As pessoas carregam expressões solenes, como se estivessem administrando impérios em crise, quando na verdade debatiam-se com torneiras que pingavam e pães que queimavam no forno. Havia um humor involuntário nessa seriedade exagerada diante de catástrofes domésticas, o drama de perder as chaves, a tra


WILIAN MARQUES
Flerte Não sei sobre o que escrever. Há um excesso de tudo, e talvez seja esse o problema. As coisas acontecem em silêncio e, mesmo assim, gritam. As pessoas piscam, respiram, se esbarram, e cada gesto contém uma história microscópica, tão viva quanto inútil. Penso que o mundo virou um arquivo de sensações órfãs: o cheiro de alguém que passou depressa, a poeira que dança na luz, o som de um riso infantil ou mesmo choro, que não tem plateia. Tudo parece pedir tradução, mas a l


WILIAN MARQUES
Tic Tac O mundo acorda atrasado. É um vício coletivo, um pacto tácito de desajuste. O ônibus não chega, o semáforo não abre, o relógio insiste em correr mais rápido do que as pernas. No espelho, o narrador, ou talvez qualquer um de nós, mede o tempo com o fio da barba por fazer, a maquiagem meia boca, o café entornado, o cadarço que nunca colabora. O dia começa com um suspiro e termina antes de começar. Há um certo heroísmo em quem ainda tenta se arrumar com dignidade enquant
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