WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 24 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
Providência
Não é preciso um altar de mármore e uma igreja ornamentada para que o milagre aconteça. Às vezes, ele se dá no silêncio de um quarto escuro, quando o sujeito, vencido pela vida, ainda assim levanta os olhos e pede, sem saber exatamente a quem. É ali, no vão entre o desespero e a esperança, que brota uma coisa estranha. Não é certeza, não é lógica, nem razão. É mais como um sussurro. Um calor no peito. Um brilho no breu. Chamam de fé. Pode ser. Mas nem precisa dar nome.
Ela não grita. Não faz alarde. Chega de mansinho, como quem não quer atrapalhar. Às vezes, vem na lembrança de uma oração da infância, na mão que se levanta sozinha para o sinal da cruz ao passar por uma gruta à beira da estrada. Outras vezes, se ajoelha sem a gente perceber, ali no banco de madeira de uma igreja qualquer, sem plateia nem cerimônia. É um gesto mínimo, mas sincero. Tem quem pense que crer é para os fortes. Engano. A maioria dos que dobram respeitosamente os joelhos, também carregam duvidas e dor. São os fracos que precisam acreditar. Os que perderam.
Os que sangram. Os que não veem mais saída, mas continuam andando. Gente comum, dessas que carregam terços no bolso e contas atrasadas na gaveta. Que rezam em silêncio no ônibus lotado ou acendem vela para o santo, em um pires gasto, no canto da pia da cozinha. Que falam com Deus como se conversa com um velho amigo: sem pompa, sem latim, só com verdade.
A fé não vive nas certezas. Mora nos detalhes. No perdão engolido a seco. No abraço dado mesmo com mágoa. Na lágrima que escapa durante o canto desafinado da missa. Na água benta tocada com dedos machucados. Na paciência que insiste. Na coragem de tentar mais uma vez. E quando tudo o mais falha, quando até a esperança desiste e vai embora, é isso que fica.
Essa coisa que ninguém vê, mas que segura a alma como quem segura uma criança no colo. Não é ilusão. É escolha, é caminho. Escolher acreditar mesmo sem ver. Confiar mesmo sem entender. É andar no escuro com a firmeza de quem viu e sentiu a luz.
No fim, quando o mundo desaba, quando os aplausos cessam, quando a tristeza vem fazer amizade, é essa presença divina que fica. Não como resposta. Mas como abrigo. A Fé, às vezes, é tudo que sobra. E, quase sempre, é o que salva.








