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WILIAN MARQUES

Cronos

Nossos velhinhos têm cheiro de lembrança. Daquelas que escapam devagarinho, como o vapor do café recém passado que esquecemos em cima da pia. A memória deles é uma rua antiga, cheia de curvas, dessas que o João do Rio descreveria com jubilo, dor e lirismo, onde cada pedra solta conta um pedaço de uma história, e cada esquina esconde um nome que eles quase lembram, quase tocam, quase dizem. A gente assiste aflitos, temerosos, o esquecimento, esse ladrãozinho insensível disfarçado de tempo. É como ver o vô procurando os óculos que estão pendurados no colarinho da camisa ou a vó repetir pela terceira vez a mesma história do casamento no salão da comunidade, com luzes fracas e vestido emprestado. E ainda assim, cada repetição carrega uma emoção nova, como se a memória, ao se perder, inventasse uma nova beleza inédita.

É nesse quase-lembrar que mora o encanto. Há uma dignidade silenciosa no esforço que fazem para lembrar o nome do antigo vizinho, uma passagem da juventude, uma viagem feita, um amor de portão. É um hercúleo trabalho de escavação: reviram gavetas mentais com mãos trêmulas e olhos marejados, colhendo as flores já murchas da memória. Eles ficam frágeis como uma xícara de porcelana trincada, ainda inteira, mas só o necessário. Seguram no nosso braço com uma força que é mais pedido que apoio. “Lembra daquele parente? Daquele lugar? Daquela história?”, perguntam. E a gente diz que sim, mesmo que não lembre. Porque eles precisam tanto da nossa certeza quanto do passado a quem já não têm por inteiro.

No fim das contas, o tempo é um carrasco polido — implacável, sim, mas de luvas brancas. Nunca pede licença, nunca se despede. Apenas toma. Arranca lembranças, nomes, cheiros, com uma elegância cruel. É profundamente injusto: destrói os que mais viveram, justamente porque viveram. Mas é ele também quem nos dá, com seu cinismo pedagógico, a chance de olhar nos olhos cansados dos nossos velhinhos e dizer “eu estou aqui”. E a gente aprende, entre uma risada e um soluço, a viver devagar com eles. Aproveitar cada segundo ao lado dos que nos ensinaram o amor sem prazo de validade. Porque quando eles se vão, e eles sempre se vão, a gente é que passa a esquecer as coisas. Menos o amor. Esse, não. Esse fica.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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