WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 18 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Mundano
O mundo não para nunca. Ele gira e segue em frente, como um motor antigo e cansado, cheio de ruídos, vibrações e um ritmo que não pede licença nem permissão. Muitas vezes, seguimos pela vida sem um rumo definido, mais por inércia do que por destino, arrastados pelos dias que se repetem. Mas, de repente, algo acontece. Algo pequeno e silencioso. Pode ser em uma esquina qualquer, no meio do caminho para o trabalho, ou talvez em um momento de distração, como olhar pela janela do ônibus. Uma calma diferente desce sobre nós. Não é felicidade explícita, não é alívio dramático, nem uma vitória, é apenas um aconchego quieto, um calorzinho suave que ocupa um cantinho do peito e simplesmente fica ali. Não pede explicações, não exige motivos. Ele apenas chega e permanece, como um visitante tranquilo que não atrapalha, mas que também não vai embora.
E é assim, através desses pequenos fragmentos de paz, que a vida realmente segue. Não são as grandes conquistas, as metas atingidas ou os momentos de glória que nos sustentam. São esses instantes breves e inesperados, um gole de café quente no frio, a sombra de uma árvore no calor, uma música que lembra algo bom, um abraço dado sem pressa. Eles não vêm porque merecemos; vêm porque a vida, às vezes, nos oferece brechas. São rasgos no tecido cinza do cotidiano, falhas no sistema que nos diz para sempre correr, produzir, vencer. Esses pedacinhos de quase felicidade não precisam de plateia, não buscam reconhecimento. São mundanos precisamente porque são simples, frágeis, e profundamente verdadeiros. Eles não resolvem problemas, mas nos lembram que ainda podemos sentir algo além do cansaço.
Quando a noite chega, a superfície ainda é a mesma. As ruas, as contas para pagar, os problemas por resolver, a louça na pia. Nada mudou, e ainda assim, algo se transformou. Um calor discreto nos acompanha, suavizando os passos, clareando os pensamentos, tornando o respirar mais leve. Não se trata de uma transformação radical; é uma companhia suave. Algo que não cobra nada, não exige nada, mas que, ainda assim, tudo altera. Talvez esse sentimento dure pouco—mais uma hora, até o fim do dia, ou quem sabe até amanhã. Não importa. O que vale é seguir com essa leveza no olhar, mais perto de nós mesmos, levando na alma uma alegria que não tem nome, mas que tem jeito de abraço. E é isso que nos faz seguir: saber que, mesmo sem razão, a vida pode ser macia por instantes.








