WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 10 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Redenção
As ruas eram um rio de indiferença, onde os invisíveis nadavam contra a correnteza.
O mundo anunciava o futuro em megafones digitais, mas seus holofotes nunca iluminavam o velho que transformava um corrimão de ônibus em travesseiro, o jovem cuja fuga era um pó branco escondido no banheiro, ou a mulher que abraçava uma bolsa vazia como se fosse a última esperança.
O mundo, com pressa de chegar a um amanhã glorioso, mastigava os sonhos dos inocentes, ao som de bombas e taças de lagrimas.
No meio da multidão, um homem caminhava. Seus passos eram lentos, pesados, como se carregasse o peso de cada pedra de desprezo jogada contra os esquecidos. Seus olhos, poços de uma tristeza bondade, não julgavam a queda alheia, mas a reconheciam. Havia uma dor imensa nesse olhar, porque na fraqueza, no vício, na desesperança, ele ainda via a centelha da humanidade, uma busca torturada por paz, por fuga, por um pingo de alívio.
Ele era um pregador sem templo, cujo púlpito era o asfalto sujo. Suas parábolas eram sussurradas para quem quisesse ouvir:
“O reino pertence ao catador, que com suas mãos calejadas transforma a lata esquecida em dignidade. É da mãe que divide o pouco arroz e ainda guarda um sorriso para o filho. É do esquecido pela multidão que, mesmo assim, não perde a semente do respeito pelo próximo.”
Mas a cidade, cega e surda, estava demasiado ocupada discutindo salvadores de palanque, promessas de grandeza e bandeiras de vitória.
Nenhum vencedor enxergava o corpo trêmulo de frio, a mão vazia estendida em vão, o silêncio ensurdecedor de uma infância negada.
Ao raiar do dia, ele parou na beira da calçada, diante do caos que avançava.
O vento trouxe o cheiro ácido de suor, de poeira e de pão velho. Então, ergueu os olhos para o céu, entremeado de concreto.
E de seu peito brotou um suspiro que carregava o peso de séculos, um som feito de amor puro e decepção profunda. Somente então, se alguém tivesse coragem de olhá-lo nos olhos, descobriria que aquele andarilho anônimo era um Jesus , ainda fiel aos últimos, mas eternamente traído pelo discurso dos que se dizem ‘os primeiros’.








