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WILIAN MARQUES

Casulo


O despertador do vizinho gritou às seis, mas ele já estava desperto. Não pelo barulho, mas pela sensação da própria carne. Uma carne absurda, recém colada nele, pele que verte suor, coça e fede a sabonete Phebo. Ontem ainda era casco duro, cheirando a Trimetilamina, uma existência rasteira. Era uma barata — sim, dessas que a literatura de Kafka jamais ousou imaginar voltando ao contrário. Agora é gente, condenado ao peso do corpo mole, dependente de café ralo, pão amanhecido e moedas minguadas no bolso.

Saiu para a rua e misturou-se à procissão matinal. Homens de camisa amarrotada, mulheres atarefadas, todos correndo atrás de vidas atrasadas. Uma praga coletiva, mas com salário mínimo. As conversas soavam mais banais que restos de pia: o tomate caro, a dor no joelho, a derrota do time, uma manchete de política. Ele, que antes roía restos engordurados em paz, agora precisa abrir a boca e fingir interesse.

Por dentro, ainda tenta esfregar as asas que perdeu.

O ar urbano traz fritura rançosa misturada ao perfume sintético de quem luta contra a podridão. Ele sente nojo das próprias mãos oleosas, nojo do sorriso automático da balconista que entrega café em copo plástico, nojo maior ainda da constatação de que se acostuma. Porque ser humano é vício: uma mordida em fruta doce, a fumaça áspera de um cigarro, a rotina disfarçada de sentido.

À tarde, sentado num banco da praça, vê crianças correndo. Uma tropeça, chora. A mãe a levanta, sopra o joelho, limpa o ranho manhoso. A criança ri de novo. Ele observa. Nenhuma barata teria esse privilégio: cair e ser erguida, sangrar e receber um sopro.

O gesto é banal, mas precioso. Talvez seja isso que chamam humanidade: teatro de dores miúdas e consolos improvisados.

À noite, volta para casa com o bolso vazio e a cabeça cheia. Continua odiando esta pele, este cheiro, este desejo que o consome. Mas guarda, escondido, um respeito incômodo por aquele sopro no joelho, aquele afago. Kafka escreveu do homem que virou barata. Ele é a barata que se enoja de ser gente. E caminha devagar, com asco, mas com a secreta suspeita de que a tragédia contém doses de ternura.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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