WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 21 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Festim
O sol do domingo derrama claridade sobre o salão da igreja, e o ar vibra com vozes, gargalhadas, crianças correndo entre mesas longas.
No meio do calor, há maionese servida em cumbucas de isopor, generosas, purê de aipim, pesado como herança que sustenta, carne assando sem pudor entre o malpassado e o queimado. Gente que fala alto, abraça forte, come com vontade.
O rodar da roleta, os prêmios acomodados em baldes, arranca suspiros e apostas tímidas, enquanto ambulantes oferecem brinquedos duvidosos vindos do Paraguai que brilham em cores improváveis.
Entre um grito de criança e outro, bolinhas de sabão sobem no ar, frágeis e redondas, estourando na claridade, lembrando que a felicidade é sempre breve, mas nunca pequena.
O Santo Padroeiro repousa em seu altar, gesso gasto, testemunha de tudo e de todos. Há nele uma ternura silenciosa, como se aceitasse a imperfeição da festa com a mesma paciência com que aceita as preces.
O Padre, ali mais importante que prefeito ou presidente, compartilha as bençãos sem avareza.
A música alta ecoa pelo salão, e ainda assim tem a força de unir. Não se canta para alcançar o céu, mas para manter o chão firme. Há beleza no exagero das vozes, no sorriso aberto de dentes amarelados, no gesto simples de partilhar um pedaço de carne mal cortada. Ali, a tristeza não desaparece, apenas se disfarça de comunhão.
A festa existe porque a vida é dura, e cada prato cheio é uma forma de lembrar que a dor pode ser suspensa, ainda que por poucas horas.
Quando a tarde cai e o calor amansa, o salão começa a se esvaziar. Restam copos de plástico amassados, brinquedos já quebrados, restos guardados em potes de sorvete.
As famílias se despedem, carregam consigo risos que durarão até o próximo encontro. Nada mudou e, no entanto, algo se transformou: uma centelha de eternidade ficou presa na fumaça da churrasqueira, no rodar lento da roleta, no abraço sem motivo.
É esse detalhe imperceptível que sustenta a memória: o domingo no salão da igreja, meio-dia de calor, vozes, comida, fé e riso. E por um instante o mundo inteiro coube ali, pequeno, imperfeito, mas inteiro.








