WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 7 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Lamento
A cidade está ficando feia. Não é uma feiura estética, apenas. É uma tristeza estrutural, um desalento que cresce pelas frestas das calçadas rachadas, pelos muros pichados, pelos galhos que jazem no chão onde antes havia árvores firmes, altivas, carregadas de sombra e história. Cortam e podam as árvores como se elas fossem culpadas da lentidão.
No lugar, brotam postes, fios, placas, concreto e pressa. A sombra natural virou artigo de luxo, as marquises requisitaram seu lugar, e sem sombra até o tempo parece queimar. As manhãs já não têm cheiro de pão saindo do forno nem som de rádio de pilha na janela, transmitindo a andorinha mensageira. Agora tudo se resume ao ronco dos carros, aos passos duros, aos rostos sem tempo para o outro.
Os vizinhos já não se acenam, as crianças não gritam mais nas ruas, e os cachorros latem para ninguém. A cidade perdeu o barulho bom da vida simples. Ganhou ruídos de urgência, como se o futuro estivesse sempre atrasado.
A praça virou ponto de passagem.
Os bancos, antes ocupados por casais, senhores observadores ou senhoras de riso frouxo, agora se cobrem de poeira. A grama secou, o coreto emudeceu. Os sinos tocam, mas ninguém ouve. As flores, cansadas, desistiram de desabrochar. As crianças
a pelas telas e os pés descalços pelos crocs e nikes, que já nãos e sujam mais de barro e aventuras. Os velhos ainda tentam, aqui e ali, puxar conversa, manter o hábito de olhar o céu e dizer que o tempo vai virar. Mas até o tempo anda calado, como se também estivesse de luto. As estradas antes de chão batido, de prosa e carona, agora engasgam em buracos, poeira e caminhões. O barulho das máquinas devora os passarinhos, e o horizonte, que antes era promessa verde de paz, agora parece só mais um muro que vai subir.
Mas o que dói mesmo não é a mudança.
É a ausência de luto.
É a maneira como ninguém parece perceber que a cidade está desvivendo, enfeando. Morre devagar, sem escândalo, sem protesto, sem missa. Vai apagando seu encanto como o apagar da luz da cozinha depois da última xícara de café fraco. A beleza vai embora sem dizer adeus. E o que fica é uma saudade funda, um gosto de fruta que não amadureceu, uma memória que começa a desbotar. Ninguém sabe ao certo quando começou, mas todo mundo sente que já não é mais como era.
E o que antes era lar, agora é só um lugar.








