WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 31 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Espelho
O Brasil começou com um gesto de gentileza: o indígena, nu e curioso, estendeu fruta e deu praia ao descobridor europeu. Não houve preconceito. Só espanto.
O nativo não julgou o cheiro, a cruz, a roupa, a língua. Não exigiu visto, nem sobrenome, nem testamento, não cuspiu regras. O colonizador, em troca, lhe tomou as terras, a língua e a alma, com a delicadeza da pólvora e o abraço de uma cruz molhada.
Depois, os portugueses, já bem senhores da terra roubada, franziram o cenho para os holandeses protestantes e os espanhóis com sua pompa de castela.
Era um samba europeu, cada um querendo ser mais branco, mais civilizado, mais legítimo que o outro, mesmo todos suando fedido igual no engenho, e morrendo igual de febre e de tiro.
Com o tempo, os italianos chegaram.
Famintos, sujos de esperança, mãos grossas, olhos fundos. Foram chamados de ignorantes, barulhentos, gente ruim, “cativos” na sua língua. Dormiam onde coubesse o corpo e algum futuro. Apanharam da língua, da lei, do olhar atravessado.
Aprenderam o português como quem mastiga pedra. Eram os “outros” de então. “Gente de fora”, diziam os que, um século antes, nem sabiam das terras tupiniquins, e agora, vomitavam getulismos.
Mas o tempo passa e a burrice se repete.
Porque hoje, numa cidadezinha do sul do mundo, feita de vinhedos, sacadas floridas e retratos sépia na sala, os netos daqueles italianos que um dia mendigaram dignidade torcem o rosto ao ver um baiano na fábrica, um haitiano na praça, um nordestino no posto de saúde.
Uns abertamente, outros, na calada dos seus círculos íntimos, sussurram, cuspindo a ironia com acento vêneto, bergamasco, lombardo, e a gente finge, que é coisa isolada, só do fulano, pavão barulhento.
Esquecem que também vieram no porão do mesmo navio, só trocaram o ano da chegada. E se o preconceito tem cor, sotaque ou fronteira, ele nunca é novo. É só o velho medo vestido de vaidade e embrulhado na bandeira errada.








