WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 24 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Rugido
Pintor do cotidiano. Parede, muro, estátua.
Mundano e simples como o barulho que não pede licença, ele chegou ao leão de cimento, como quem chega à própria sina.
Estava lá, imóvel e altivo, o bicho frio que rugia em silêncio no canto do trevo.
Era só mais uma encomenda, um trabalho sem solenidade, sem alarde, dar cor à fera esculpida.
Mas nenhum pincel é inocente, e nenhuma tinta é só cor. Quando tocou a juba com seus tons de laranja subversão, delineou os olhos do felino com preto roldão, aí sim, começou a confusão. Alguns viram beleza, outros viram ofensa. Uns poucos viram o leão.
A burocracia acordou, espreguiçou-se e de pronto requisitou sua fatia de decisão. Analisaram paleta, traço, intenção. Debateram em contendas acaloradas o tom do felino.
Entre dedos erguidos e sobrancelhas franzidas, discutia-se se aquilo era arte ou abuso, provocação ou amadorismo.
No coliseu da cultura, onde o polegar substitui o olhar, o que se julgava não era o leão, mas o direito de decidir o destino dele. Uns queriam erguer cercas, outros, erguer estátuas novas. Ninguém quis apenas observar.
E o pintor assistia calado. Coçou a testa, olhou de lado, nem sabia direito por que tanto barulho.
Só pintou o leão do jeito que achou bonito. Fez como sabia: sem régua, sem projeto, sem pedido de permissão.
Nem se dizia artista. Era só um sujeito que sabia lidar com tinta e tinha gosto em colorir o cinza das coisas. Mas sem querer, causou um terremoto. Porque por trás da tinta borrada estava a pergunta que ninguém quis ouvir: quem decide o que é feio ou belo? E por quê?
No fim, o leão ficou ali, empacotado.
Uns queriam apagar, outros fotografavam, outros faziam seminário. Mas ninguém passou sem notar.
Ninguém saiu ileso. E ele? Ele foi embora devagar, com a caixa de tinta na bicicleta, e o pincel ainda sujo.
Nem soube que virou manchete. Mas deixou pra trás algo maior que um bicho pintado. Deixou um rastro de dúvida. Pintou um leão, sim.
Mas pintou também a vaidade dos sábios, a aflição dos críticos, a vergonha dos neutros.
Pintou, sem saber, um levante.
No fundo, talvez tenha sido isso mesmo, mais que um leão, ele pintou confusão, pintou ilusão, pintou comoção.
E sem saber, assinou a própria coragem.








