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WILIAN MARQUES

Pseudo-herói


A madrugada desce sobre Gotham como um véu de esquecimento.

O Bat-sinal, outrora um farol de urgência, jaz apagado—não por vitória, mas por ausência.

A cidade, sem monstros, adormece em um falso paraíso. E o herói, privado de seu propósito, reduz-se a um palhaço de festa infantil: sopra velas, afia uma espada sem dragão, ensaia golpes contra fantasmas. Mas o homem não suporta a paz.

Sem inimigos reais, ele os fabrica.

O vizinho torna-se um tirano, o colega um traidor, o político um demônio. Cada discordância é uma declaração de guerra, cada rumor um chamado às armas. Nas redes, nas ruas, nos bares, erguem-se estandartes de causas vazias—guerras de mentira, travadas por soldados de papel.

O cidadão “virtuoso” infla o peito, brandindo hashtags como espadas, transformando trivialidades em batalhas épicas. Ele não quer justiça; quer apenas sentir-se importante. Gotham, quieta, observa.

Os verdadeiros monstros nunca foram os que rugiam nas sombras, mas os que se escondem atrás do espelho. Caim matou Abel não por ódio, mas por insignificância—e hoje, em legiões, repetimos seu crime em escala industrial.

Caçamos bruxas inexistentes, denunciamos conspirações imaginárias, porque o vazio do cotidiano é mais aterrorizante que qualquer vilão.

Preferimos a histeria ao silêncio. A mentira ao vazio. O herói de botequim, embriagado de indignação, vomita posts como lanças.

Seu inimigo é sempre abstrato—o “sistema”, os “outros”, o “mal”—mas seu medo é concreto: o temor de ser apenas um homem comum, frágil e passageiro. Ele não luta por algo; luta para não ter de encarar o nada que o habita.

E assim, na falta de dragões, criamos quimeras.

Gotham poderia ser um farol, mas escolheu ser um circo. Seus heróis, outrora guardiões, agora são gladiadores de arena digital, disputando likes como se fossem troféus. O Bat-sinal, se acendido, iluminaria apenas a verdade mais cruel: que o maior inimigo nunca esteve lá fora. Está no nosso reflexo—na incapacidade de suportar a própria pequenez.

No fim, quando não há mais vilões, revelamos a nós mesmos. E isso, para o falso herói, é a derrota mais terrível.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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