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WILIAN MARQUES

Perpétuo


Acordo e penso em Sísifo, aquele grego que empurrava uma pedra morro acima, e ela teimava em descer novamente.

Imagino-o aqui, na cozinha, encarando a xícara de café fumegando, a porcelana aquecendo a mão e alma. Sísifo não mora mais na Grécia, virou cada um de nós, empurrando boletos, promessas, dietas, desculpas de segunda-feira.

Empurra a pedra até o topo — uma meta, um plano, um perdão — mas ela, ladina, rola de volta.

E lá vamos nós outra vez, ajeitar a coluna, engolir o suspiro, apertar os sapatos.

Empurrar a pedra, suar a camisa, fingir que dessa vez vai ser diferente.

A rua lá fora zomba: o médico atrasa, o sinal fecha, o chefe cobra, o relógio corre.

Tudo conspira para ver a pedra no começo do morro de novo. E ela desce. Sempre desce.

Mas há um instante secreto, entre tropeço e recomeço, onde mora um milagre quase invisível: a coragem de insistir no impossível.

Toda manhã, Sísifo sacode a poeira, ajeita o cabelo, beija a testa dos filhos, sorri pra rotina.

Engana-se quem pensa que é castigo.

Sísifo sorri, por dentro.

Empurrar a pedra o faz humano, dono do seu próprio peso e das próprias derrotas.

Não há inferno maior do que não ter pedra nenhuma para empurrar.

É preciso tropeçar pra sentir o joelho ranger.

É preciso cair pra entender o colo do chão.

É preciso levantar porque, no fundo, não sabemos parar. O truque, quem sabe, seja batizar a pedra: escrever nela um verso, um sonho bobo, um amor teimoso, uma promessa de café quente, uma gargalhada no meio da subida. Dar sentido ao fardo.

Então Sísifo engole o café já meio frio, abre o portão, encontra outros Sísifos e Sísifas nas esquinas.

Acena, troca piadas, divide silêncios.

É um batalhão de tolos que sabem que não vão chegar — mas vão mesmo assim. Na teimosia mora o milagre. Cada tropeço é um passo. Cada passo, uma chance.

Cada recomeço, uma oração soprada ao vento.

Empurramos a pedra, sim — mas entre uma ladeira e outra, fritamos um ovo, sentamos na calçada, contamos estrelas, escutamos a vida.

E prometemos ao céu que amanhã, quem sabe, será diferente. E é isso, no fim, que nos salva.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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