WILIAN MARQUES
- MARCIA MARQUES COSTA

- 10 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Perpétuo
Acordo e penso em Sísifo, aquele grego que empurrava uma pedra morro acima, e ela teimava em descer novamente.
Imagino-o aqui, na cozinha, encarando a xícara de café fumegando, a porcelana aquecendo a mão e alma. Sísifo não mora mais na Grécia, virou cada um de nós, empurrando boletos, promessas, dietas, desculpas de segunda-feira.
Empurra a pedra até o topo — uma meta, um plano, um perdão — mas ela, ladina, rola de volta.
E lá vamos nós outra vez, ajeitar a coluna, engolir o suspiro, apertar os sapatos.
Empurrar a pedra, suar a camisa, fingir que dessa vez vai ser diferente.
A rua lá fora zomba: o médico atrasa, o sinal fecha, o chefe cobra, o relógio corre.
Tudo conspira para ver a pedra no começo do morro de novo. E ela desce. Sempre desce.
Mas há um instante secreto, entre tropeço e recomeço, onde mora um milagre quase invisível: a coragem de insistir no impossível.
Toda manhã, Sísifo sacode a poeira, ajeita o cabelo, beija a testa dos filhos, sorri pra rotina.
Engana-se quem pensa que é castigo.
Sísifo sorri, por dentro.
Empurrar a pedra o faz humano, dono do seu próprio peso e das próprias derrotas.
Não há inferno maior do que não ter pedra nenhuma para empurrar.
É preciso tropeçar pra sentir o joelho ranger.
É preciso cair pra entender o colo do chão.
É preciso levantar porque, no fundo, não sabemos parar. O truque, quem sabe, seja batizar a pedra: escrever nela um verso, um sonho bobo, um amor teimoso, uma promessa de café quente, uma gargalhada no meio da subida. Dar sentido ao fardo.
Então Sísifo engole o café já meio frio, abre o portão, encontra outros Sísifos e Sísifas nas esquinas.
Acena, troca piadas, divide silêncios.
É um batalhão de tolos que sabem que não vão chegar — mas vão mesmo assim. Na teimosia mora o milagre. Cada tropeço é um passo. Cada passo, uma chance.
Cada recomeço, uma oração soprada ao vento.
Empurramos a pedra, sim — mas entre uma ladeira e outra, fritamos um ovo, sentamos na calçada, contamos estrelas, escutamos a vida.
E prometemos ao céu que amanhã, quem sabe, será diferente. E é isso, no fim, que nos salva.








