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WILIAN MARQUES

Clube dos Derrotados Anônimos


O sujeito entra no bar como quem carrega o fardo da humanidade inteira nas costas, mas não é Jesus — é só mais um derrotado com a conta de luz vencida, a dignidade no cheque especial, a dívida com o bodegueiro atrasada, e uma desculpa pronta na ponta da língua.

Encosta no balcão como se o mundo lhe devesse um tapinha nas costas e uma dose de pinga, no capricho, com chorinho e no copo de vidro.

Tu já viu esse tipo. Está por todo canto.

Eles se reproduzem feito mofo em parede úmida: indiscretos, persistentes, pouco invisíveis. É a Síndrome do Derrotado.

Um estado de espírito permanente, uma condição existencial que transforma qualquer azar pessoal numa epopeia universal.

A pessoa nunca teve chance. Nunca deixaram. Nunca deram.

Sempre foram “os outros”: o chefe canalha, o ex maluco, o pai ausente, a mãe relapsa, a economia, o signo, o karma, Marte retrógrado, a porcaria do calor. A vida o atropelou com uma carreta desgovernada e ainda buzinou, debochada.

Ele repete a própria tragédia com uma vaidade encoberta, como quem declama um poema que ninguém pediu.

O fracasso dele tem um charme sujo, uma estética de mártir.

Vive de fiado no boteco do Bozelo, do Padilha, da Fátima, mas sonha com biografia autorizada. Porque ser vítima é o novo heroísmo. E esse sujeito, ou sujeita, se tornou especialista nisso — um profissional do coitadismo.

Os companheiros de balcão já conhecem o enredo: “Fulano fez a minha caveira...”, “Só sou bom quando precisam de mim...”, “Tava trabalhando direitinho até que...”.

E todos ouvem com cara de velório, revezando tragos e acenos. Ninguém quer cortar o barato — porque, no fundo, é confortável ter alguém mais ferrado por perto.

Um espantalho emocional que assusta os nossos próprios fracassos para longe.

Só que, talvez, ele tenha sido só preguiçoso.

Covarde. Medíocre mesmo. Mas isso não rende aplauso.

Não dá curtida. Não sustenta narrativa. Não garante o fiado.

Então ele adorna o fracasso com plumas.

Transforma cada escolha covarde num azar inexplicável. E segue. Sempre vítima. Sempre coitado.

Sempre protagonista da ópera trágica onde o vilão é o universo, o destino, os outros.

E aí você se pergunta — baixo, tímido, no seu canto — se não tem um pouquinho dele em você.

Um pedaço escondido, que adora um ombro amigo, mas evita o espelho limpo.

Não responda. A dúvida, meu caro, é companhia mais fiel que qualquer certeza.

 
 
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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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