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Cheiro de suco na Rua da Igreja


Vista interna da Cantina Cadorin, década de 1950, quando ocorreu uma enchente no centro de Urussanga. Foto Arquivo Panorama- Autor desconhecido
Vista interna da Cantina Cadorin, década de 1950, quando ocorreu uma enchente no centro de Urussanga. Foto Arquivo Panorama- Autor desconhecido

Havia uma magia estranha naquela rua ao lado da igreja matriz, que nem o tempo conseguiu apagar completamente. Aquela magia que só existe quando uma cidade inteira respira ao mesmo ritmo, quando um sonho bom reverbera em todas as almas ou o trabalho de um homem vira motivo de felicidade.

E um desses momentos que vale a pena relembrar está relacionado ao título de Capital do Bom Vinho dado a Benedetta, e nos remete ao Seu Orlando Cadorin, morador da Rua Dr. Fiuza da Rocha, atualmente denominada de Américo Cadorin, quando ele enfrentava as dificuldades e concorrências da vinicultura em nível nacional e trazia alegria para as crianças da rua a cada safra produzida.

A cantina, fundada em 1953 por seus familiares, não era apenas um lugar onde se fazia vinho, era o coração pulsante de uma tradição que ligava a terra à mesa das famílias, que transformava suor em safra, em renda, em esperança.

E essa tradição tinha momentos especiais.

Um deles era quando chegava o caminhão de Caxias do Sul, do vizinho estado gaúcho, que anunciava-se de longe levantando poeira nas ruas de terra batida do centro da pequena cidade no sul catarinense.

As crianças, sempre as crianças, eram as primeiras a sentirem, a sussurrarem umas às outras: “está chegando uva!”

As caixas desembarcavam pesadas de promessa.

Uvas pretas de Caxias, gordas, maduras, escuras como segredos da terra.

O perfume doce tomava conta da rua, invadia as narinas, despertava uma fome antiga de colheita. Começava então o espetáculo.

Os homens que carregavam as caixas sempre deixavam cair bagos de uvas ao transportá-las de um lado para outro, amassando-as com os pés e fazendo com que o suco escorresse pela calçada defronte a cantina, criando espectros de futuro que a cidade inteira podia ver.

Havia algo de alquimia espiritual naquilo: o mero suco roxo sendo drenado e transformado em promessa de vinho. O aroma tomando conta de tudo.

Era acontecimento importante.

Os vizinhos chegavam no intervalo do almoço para ver. Franz Bez Fontana e Dona Maria que moravam ao lado da cantina com seus filhos, ex-prefeitos Adelino Bettiol e Torquato Tasso que também residiam nessa rua da área central, além de moradores próximos como Dário Baptista, Luiz de Souza, Bruno Piacentini, Vangiro De Bona Sartor, José Maria Neves Marques (meu pai), Eliseu Cordini (meu tio-avô), Jaci Massuchetti e outros que por hora não recordo os nomes.

Não era curiosidade ociosa, era participação.

Vinham observar o ritual que garantia fechamento do ciclo da safra anterior.

Havia naquilo uma fé compartilhada: se Orlando conseguisse processar bem as uvas, se o vinho fermentasse como deveria, então a vinícola continuaria suas atividades, haveria emprego e pagamento de impostos que se transformariam em benfeitorias para a cidade, além de terem bebida para as festas, para os casamentos, para os momentos que mereciam um alegre tim tim. E, também, uma esperança de mais medalhas em concurso nacional, como a Cantina Cadorin já havia conquistado.

Não era apenas vinho sendo feito, era comunidade se reafirmando, era a pequena cidade dizendo a si mesma: ainda estamos aqui, ainda funcionamos, ainda criamos coisas boas com as nossas mãos.

Orlando morreu há muito tempo.

A cantina virou sucata e lembrança, desapareceu como desaparecem os lugares em cidades que crescem depressa sem lembrar de seus próprios espíritos.

Mas aqueles que, como esta escritora, foram crianças naquela rua, que tiveram os dedos manchados de suco roxo, que sentiram a generosidade desinteressada de um homem que acreditava ser a melhor parte do vinho, o suco que escorria pelas mãos das crianças que ele presenteava com belos cachos de uvas, esses guardam a memória dessa magia.

E magia verdadeira é aquela que permanece, mesmo quando o lugar desaparece. Permanece em uma sensação. Na lembrança de um sabor. Na certeza, mesmo uma única vez sentida, de que a vida pode ser generosa e muito doce.

Aquela rua ao lado da igreja, que também conduzia os mortos ao seu lugar eterno de descanso no cemitério da Baixada, naqueles dias de colheita e regozijo infantil também sabia disso.

Obrigada, Seu Orlando Cadorin!

Por tão belas recordações.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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