Os domingos de Nonna Carmela
- MARCIA MARQUES COSTA

- 22 de mai.
- 3 min de leitura
POR MARCIA MARCIA COSTA

Era uma tarde de maio que descia morna sobre a pequena Urussanga, como se o próprio céu descansasse da semana de labuta.
A praça, se assim se podia chamar aquele triângulo de terra pisada e cercada com pedaços de madeira, ladeado por poucos casarões coloniais e uma igrejinha branca, estava feliz em ver gente com trajes domingueiros.

Nonna Carmella, minha bisavó materna, viúva que tocava um bar nas proximidades para criar seus quatro filhos, sentava-se na mesma cadeira de palha que seus pais conheceram, abrandando o corpo cansado e o calor com um leque de papel onde se via gravado um santo milagreiro.
Ao seu lado, o sogro Lucas Bez Batti, o prefeito austero que perdia seu ar sisudo ao ver seus netos brincando, contava para um amigo os segredos sobre a boa colheita de milho em propriedade do interior, enquanto as crianças descalças perseguiam uma galinha que fugira de uma camponeira nas proximidades e corria entre as banquetas de madeira no jardim.
Perto dali, no alto do morro, Padre Luigi, mais conhecido por Gilli, saía da sacristia da pequena igreja consagrada a Nossa Senhora da Conceição, ainda envolvido na batina preta, com o sotaque turinês ecoando em seus cumprimentos.
Havia chegado na paróquia direto dos Alpes italianos, e ainda conservava a teatralidade nas gesticulações quando conversava com fieis ou celebrava suas missas.
Agora, cumprido seu papel de sacerdote com a missa matutina, suas mãos repousavam sobre as pernas cansadas na poltrona simples da Casa Paroquial, e aceitava com prazer um copo de leite tépido que a cozinheira, Dona Matilde, lhe oferecia.
O murmúrio tranquilo das conversas se entrelaçava com os sons da manhã: o sino da igreja tilintando lentamente a passagem das horas, as folhas das jovens árvores sussurrando mensagens ao vento quase inexistente, o grito longínquo de um pássaro na mata... Ninguém tinha pressa.
O tempo, naquela praça, movia-se com a lentidão das nuvens que passavam, brancas e preguiçosas, sobre os telhados de barro. As mulheres conversavam sobre receitas de bolo de milho e remédios caseiros para as doenças do frio que se aproximava.
Os homens fumavam seus cigarros de palha, falando em sussurro sobre política, cavalos, juntas de bois e colheitas.
O Padre Gilli contava histórias da Europa, da 1ª Guerra Mundial já findada, dos picos nevados da sua Itália que ninguém ali tinha visto, enquanto os meninos o cercavam, com os olhos redondos de assombro ao ouvir o Padre falar sobre a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao governo do Brasil, tido como um nacionalista e visto como perigo aos imigrantes italianos que ainda viviam ao ritmo della pátria madre em solo brasileiro.
E assim passava o domingo no centro da vila há poucos anos fundada: sem apressamentos, sem barulho além do necessário, cercada pela mata escura que começava já nas bordas da pequena civilização. A graça não estava em nada extraordinário, mas naquilo que permanecia: as mesmas famílias, as mesmas cadeiras,os mesmos bancos na praça, o mesmo pátio de terra, a mesma sina repetida semana após semana, domingo após domingo.
O sol baixava devagar, tingindo de ouro a fachada branca da igrejinha.
Nonna Carmella fechava seu leque e seu bar. O Padre Gilli pedia as bençãos de Deus para seu povo na última missa do dia. E ninguém queria estar em lugar algum a não ser ali, naquele domingo morno, naquela praça cercada, naquela vila pequena, onde o tempo parava e a vida continuava seu curso simples e infinito.




