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Os domingos de Nonna Carmela

POR MARCIA MARCIA COSTA


Praça Anita Garibaldi - Urussanga - 1930 - Arquivo Panorama
Praça Anita Garibaldi - Urussanga - 1930 - Arquivo Panorama

Era uma tarde de maio que descia morna sobre a pequena Urussanga, como se o próprio céu descansasse da semana de labuta.

A praça, se assim se podia chamar aquele triângulo de terra pisada e cercada com pedaços de madeira, ladeado por poucos casarões coloniais e uma igrejinha branca, estava feliz em ver gente com trajes domingueiros.


Carmella Bresciani Bez Batti
Carmella Bresciani Bez Batti

Nonna Carmella, minha bisavó materna, viúva que tocava um bar nas proximidades para criar seus quatro filhos, sentava-se na mesma cadeira de palha que seus pais conheceram, abrandando o corpo cansado e o calor com um leque de papel onde se via gravado um santo milagreiro.

Ao seu lado, o sogro Lucas Bez Batti, o prefeito austero que perdia seu ar sisudo ao ver seus netos brincando, contava para um amigo os segredos sobre a boa colheita de milho em propriedade do interior, enquanto as crianças descalças perseguiam uma galinha que fugira de uma camponeira nas proximidades e corria entre as banquetas de madeira no jardim.

Perto dali, no alto do morro, Padre Luigi, mais conhecido por Gilli, saía da sacristia da pequena igreja consagrada a Nossa Senhora da Conceição, ainda envolvido na batina preta, com o sotaque turinês ecoando em seus cumprimentos.

Havia chegado na paróquia direto dos Alpes italianos, e ainda conservava a teatralidade nas gesticulações quando conversava com fieis ou celebrava suas missas.

Agora, cumprido seu papel de sacerdote com a missa matutina, suas mãos repousavam sobre as pernas cansadas na poltrona simples da Casa Paroquial, e aceitava com prazer um copo de leite tépido que a cozinheira, Dona Matilde, lhe oferecia.

O murmúrio tranquilo das conversas se entrelaçava com os sons da manhã: o sino da igreja tilintando lentamente a passagem das horas, as folhas das jovens árvores sussurrando mensagens ao vento quase inexistente, o grito longínquo de um pássaro na mata... Ninguém tinha pressa.

O tempo, naquela praça, movia-se com a lentidão das nuvens que passavam, brancas e preguiçosas, sobre os telhados de barro. As mulheres conversavam sobre receitas de bolo de milho e remédios caseiros para as doenças do frio que se aproximava.

Os homens fumavam seus cigarros de palha, falando em sussurro sobre política, cavalos, juntas de bois e colheitas.

O Padre Gilli contava histórias da Europa, da 1ª Guerra Mundial já findada, dos picos nevados da sua Itália que ninguém ali tinha visto, enquanto os meninos o cercavam, com os olhos redondos de assombro ao ouvir o Padre falar sobre a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao governo do Brasil, tido como um nacionalista e visto como perigo aos imigrantes italianos que ainda viviam ao ritmo della pátria madre em solo brasileiro.

E assim passava o domingo no centro da vila há poucos anos fundada: sem apressamentos, sem barulho além do necessário, cercada pela mata escura que começava já nas bordas da pequena civilização. A graça não estava em nada extraordinário, mas naquilo que permanecia: as mesmas famílias, as mesmas cadeiras,os mesmos bancos na praça, o mesmo pátio de terra, a mesma sina repetida semana após semana, domingo após domingo.

O sol baixava devagar, tingindo de ouro a fachada branca da igrejinha.

Nonna Carmella fechava seu leque e seu bar. O Padre Gilli pedia as bençãos de Deus para seu povo na última missa do dia. E ninguém queria estar em lugar algum a não ser ali, naquele domingo morno, naquela praça cercada, naquela vila pequena, onde o tempo parava e a vida continuava seu curso simples e infinito.

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Criado por Lady Cogumelo - Panorama SC

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