Zé Catarina - tradição centenária ganha novo sineiro
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 1 dia
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Faltando poucos minutos para as seis da manhã, o silêncio típico das primeiras horas do dia em Urussanga começa a ser quebrado por um som carregado de história, fé e tradição.
A partir desta semana, os sinos da Igreja Nossa Senhora da Conceição voltam a ecoar diariamente graças ao gesto voluntário de um morador da comunidade: José Catarina.
O convite partiu de Gilson Antônio Fontanella, conhecido na cidade pelo envolvimento com a preservação cultural e histórica do município. Sem remuneração, José aceitou a missão de tocar os sinos nos horários tradicionais, resgatando um costume que, por um período, esteve parcialmente interrompido.
“É voluntário mesmo”, resume José Catarina, ao explicar a decisão.
Motivado pela fé e também pelo simbolismo do gesto, ele assume a função que vai além do simples ato de tocar os sinos. Para muitos, trata-se de um chamado espiritual, uma prática carregada de significado religioso e comunitário.
A necessidade de um novo voluntário surgiu após o afastamento de Camola, figura bastante conhecida entre os fiéis e responsável por manter a tradição ativa em diversos momentos do dia. Com um sério problema de saúde, ela precisou deixar a atividade, o que impactou diretamente a rotina dos toques, especialmente nos horários fora das missas.
Gilson Fontanella destaca que, apesar da lacuna, a dedicação de voluntários nunca deixou de existir. “Nós temos outras pessoas que ajudam, como o Elias Fontanella e o Laércio, todos voluntários. Mas havia horários em aberto, como o da Ave Maria, ao meio-dia e à tarde. Agora, com o Zé, conseguimos retomar esses momentos”, explica.
Mais do que preencher uma escala, José Catarina passa a integrar uma tradição que exige atenção e aprendizado.
Cada momento do dia possui um toque específico, com variações que comunicam diferentes significados à comunidade. Para isso, ele conta com o apoio de Fontanella, que o orienta sobre as técnicas e particularidades do campanário.
A história dos sinos da igreja remonta ao início do século passado e acompanha o próprio desenvolvimento de Urussanga.
Segundo Fontanella, a construção do campanário teve início em junho de 1923. Já os sinos possuem origens distintas: um deles, o chamado “sino número 2”, data de 1904, enquanto os outros três foram instalados em 1927, ano da conclusão da torre.
A proximidade do centenário da colocação dos sinos, que será celebrado em 2027, reforça ainda mais a importância da preservação dessa tradição.
O som que ecoa pelas ruas da cidade não é apenas um aviso de horários religiosos, mas também um elo entre gerações, um patrimônio imaterial que resiste graças ao empenho de pessoas da própria comunidade.
Nesse contexto, a atitude de José Catarina ganha um significado ainda mais especial. Em tempos de mudanças aceleradas, o gesto simples de subir ao campanário nas primeiras horas do dia representa a continuidade de uma prática que atravessa décadas.
Entre fé, história e dedicação voluntária, os sinos da Igreja Nossa Senhora da Conceição seguem cumprindo seu papel: marcar o tempo, reunir a comunidade e manter viva a identidade cultural de Urussanga. E agora, com um novo voluntário, a tradição ganha fôlego renovado para seguir ecoando pelos próximos anos.




