Urussanguense foi sequestrada no Expresso Cubano da Varig

Um avião comercial não vira lenda apenas por cruzar oceanos. Às vezes, entra para a história por ter sido empurrado para o centro de uma crise que ninguém a bordo escolheu viver.
Foi o que aconteceu com o Boeing 707-345C da Varig conhecido como “Expresso Cubano”, aeronave associada a dois sequestros em 1969, outro em 1970 e a um dos capítulos mais tensos da aviação brasileira.
Entre os nomes ligados a esse episódio está o da urussanguense Altair Mazzucco, comissária de voo da Varig.
A aeronave na qual Altair trabalhava alcançou um recorde mundial histórico: foi sequestrada três vezes para Cuba em um intervalo de menos de seis meses.
O primeiro sequestro aconteceu em 4 de novembro de 1969 quando o avião fazia a rota Buenos Aires–Santiago do Chile (origem no Rio de Janeiro) e foi tomado por militantes armados e desviado para Havana.
O segundo sequestro foi em 28 de novembro de 1969, apenas 24 dias após o primeiro incidente, quando o mesmo Boeing 707 foi interceptado novamente por sequestradores na rota de Paris para o Rio de Janeiro.
Foi neste segundo sequestro que Altair Mazzucco constou formalmente na lista de tripulantes reféns.
E o terceiro em 12 de março de 1970, quatro meses e oito dias após o primeiro ataque, o Boeing 707 PP-VJX foi vítima do seu terceiro e último sequestro. O avião fazia o voo RG862, saindo de Santiago para Nova York (EUA), com escalas em Buenos Aires e Rio de Janeiro. Logo após decolar da capital chilena, um dos 28 passageiros a bordo rendeu uma das comissárias e exigiu que o avião fosse novamente desviado para Havana.
Para cumprir a exigência do sequestrador, o Boeing 707 PP-VJX retornou ao aeroporto de Santiago para ser reabastecido e, então, seguir até Cuba.

O avanço tecnológico
Para entender o impacto do caso, é preciso lembrar o que o Boeing 707 significava naquele período. Nos anos 1960, o modelo simbolizava alcance, velocidade e prestígio. Era o avião que ligava continentes com uma regularidade impensável poucas décadas antes.
A Varig, então uma das companhias aéreas mais importantes da América Latina, usava o 707 em rotas internacionais e de longa distância.
O 707 também carregava uma imagem de modernidade. Cabine pressurizada, motores a jato, voos mais rápidos e conexões internacionais faziam parte de uma nova fase da aviação comercial. Para muitos passageiros, embarcar em um Boeing 707 era sinal de status e de confiança na tecnologia.
Mas o fim dos anos 1960 também trouxe outro fenômeno: o aumento dos sequestros de aviões.
Em várias partes do mundo, aeronaves comerciais passaram a ser usadas como instrumentos de pressão política, fuga ou propaganda. Cuba aparecia com frequência como destino imposto por sequestradores, especialmente em casos envolvendo países das Américas. Foi nesse ambiente que o Boeing 707-345C da Varig ganhou o apelido amargo de “Expresso Cubano”. O nome não nasceu de uma rota oficial, mas da repetição de um desvio forçado para Cuba. Era uma ironia dura, típica de bastidores, para um avião que acabou associado a um período de medo e instabilidade.
Vale ressaltar que, na época, os procedimentos de segurança em aeroportos eram muito diferentes dos atuais.
A triagem de passageiros era limitada, o acesso às áreas de embarque era menos controlado e a presença de pessoas armadas a bordo, embora ilegal, era mais difícil de detectar. O sequestro aéreo ainda era tratado por muitas autoridades como uma ameaça nova, em rápida evolução.
E essa ameaça permanece como lembrança da necessidade de criar novos mecanismos de segurança em aeronaves e aeroportos, além de reunir vários elementos fortes da história brasileira: a expansão da Varig, a era dos jatos, a tensão política dos anos 1960 e a vulnerabilidade dos voos comerciais.
Mas o caso também importa por outro motivo. Ele devolve protagonismo a profissionais que, muitas vezes, aparecem apenas como parte da tripulação.
A urussanguense Altair Mazzucco representa esses comissários que precisaram agir com calma quando a cabine deixou de ser um ambiente de serviço e passou a ser um espaço de risco. A aviação costuma celebrar pilotos, aeronaves e rotas históricas. Com razão.
Mas a segurança de um voo também se constrói no corredor estreito entre as fileiras de assentos, no tom de voz usado para orientar passageiros e na capacidade de perceber o medo antes que ele vire pânico.
Ao recordar esse episódio, a aviação brasileira revisita um tempo em que voar era sinônimo de modernidade, mas também de novas ameaças.
E o Jornal Panorama lembra que, em momentos críticos, a diferença entre caos e sobrevivência muitas vezes depende de pessoas que conseguem manter a calma quando quase tudo ao redor perdeu o controle.
Nesta matéria, a homenagem da Família Panorama a esta urussanguense que foi buscar no alto a realização de seu sonho e manteve os pés bem firmes na imensidão da fé, quando precisou mostrar segurança a quem precisava.





