Paraguaio ensina português para imigrantes no Brasil
- MARCIA MARQUES COSTA

- há 4 horas
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Um projeto social tem transformado o aprendizado da língua portuguesa em ferramenta essencial de integração para imigrantes e refugiados em Criciúma. No centro dessa iniciativa está Clemente Coronel Ovelar, paraguaio de origem e brasileiro por escolha (naturalizado), ele atua como professor voluntário no projeto Happy Integrar, da Associação Beneficente Happy Face, onde ensina português a imigrantes e refugiados.
Em duas salas simples, divididas entre vozes, sotaques e histórias de vida, a língua portuguesa se transforma em ponte. “Eu me voluntariei para dar aulas porque precisavam de alguém que pudesse ensinar português para pessoas de fala espanhola. No Paraguai, temos dois idiomas oficiais, espanhol e guarani, então consigo usar a minha experiência”, conta.
O que começou com um grupo pequeno, formado principalmente por venezuelanos, hoje reúne uma diversidade de nacionalidades. “Temos haitianos, cubanos, venezuelanos, colombianos, peruanos, argentinos, ganeses, togoleses, tunisianos, sírios, libaneses... é muito diverso”.
Aulas que atravessam idiomas
As aulas acontecem duas vezes por semana, com duas turmas divididas conforme o nível de compreensão do português. O método está longe de ser convencional. Com estudantes que falam espanhol, francês, inglês e até árabe, Ovelar e a equipe precisam adaptar o ensino constantemente.
“Cada aula precisa abordar até quatro idiomas. Todo vocabulário que usamos, temos que explicar de formas diferentes para que todos entendam”, explica. Segundo ele, o objetivo não é apenas ensinar regras gramaticais, mas garantir que os alunos consigam interagir no dia a dia. “Não é um curso normal. A intenção é que eles tenham o mínimo para se comunicar no trabalho”.
Para isso, o ensino é baseado em vocabulário prático: objetos da casa, roupas, partes do corpo e situações cotidianas. “Se eu mostro uma imagem, eles precisam saber descrever. Isso exige vocabulário”.
Ovelar ressalta que fazer parte desse processo vai além do ensino. Entre desafios e aprendizados, ele diz encontrar felicidade no voluntariado. “Sei o que é chegar em um lugar novo. Então fico feliz de ver que eles começam a entender, a falar, a se sentir mais seguros. Isso não tem preço”, afirma.
A rotina das aulas também se estende para além do conteúdo em sala. Em alguns encontros, após o encerramento das atividades, a própria instituição oferece um momento de confraternização na recepção do espaço. O gesto complementa a proposta do projeto ao transformar o aprendizado em uma experiência de integração fora da sala de aula.
Ensinar como forma de retribuir
A motivação de Ovelar tem raízes pessoais. Imigrante no passado e há mais de 50 anos no Brasil, ele encontrou no voluntariado uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu. “Minha intenção é devolver um pouco daquilo que eu recebi quando cheguei”, acrescentou.
Essa experiência também ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas pelos alunos. Segundo ele, o maior desafio é a compreensão auditiva. “A fonética do português é diferente, principalmente para quem fala espanhol, pode parecer igual, mas não é”.
Ele cita exemplos comuns em sala de aula. “Palavras com ‘ão’ são difíceis. ‘Coração’, por exemplo, eles falam ‘corassau’. Também confundem palavras parecidas, como ‘abacate’ e ‘abacaxi’”.
Além da língua, há outro desafio: a diversidade do grupo. “Tenho alunos com ensino fundamental incompleto e outros que são engenheiros ou médicos. Tem uma criança de 11 anos e um senhor de 78. Conciliar tudo isso em uma classe é um desafio diário”.
Como participar
As aulas são abertas a imigrantes e refugiados que chegam à região carbonífera de Criciúma. O ingresso ocorre de forma contínua: novos participantes podem se cadastrar diretamente no local e passam a integrar a turma inicial.
As atividades acontecem às terças e quintas-feiras, a partir das 19h, com duração de duas horas. Segundo Ovelar, há rotatividade entre os alunos, já que muitos deixam de frequentar as aulas ao conseguir emprego ou por incompatibilidade de horários. Ainda assim, cerca de 15 a 20 estudantes participam regularmente.
O projeto Happy Integrar
Criada em 2014, a Happy Integrar faz parte da entidade Happy Face. O projeto foi criado para atender a crescente demanda de imigrantes na cidade, especialmente de comunidades venezuelanas e haitianas. É um espaço onde imigrantes e refugiados encontram apoio por meio de aulas de português, acompanhamento social e oportunidades de reconstrução da vida.
A sede do programa está localizada na Rua Giacomo Sônego, n°150, no Centro de Criciúma.
No local também funciona um Bazar Solidário fixo, aberto ao público, com peças e utensílios com valores acessíveis que são destinados ao programa.
A Associação Happy Face
A Associação Beneficente Happy Face funciona sem fins lucrativos e promove programas e projetos voltados à população em vulnerabilidade social e imigrantes. Desde sua fundação (2014) até o ano de 2018 a entidade focou na facilitação da língua portuguesa para imigrantes e refugiados. Em 2019 houve mudança no estatuto, o que permitiu à organização avançar para a expansão de novos projetos voltados ao público infanto-juvenil.
Colaboração assessoria voluntária da disciplina de Assessoria de Comunicação, do curso de Jornalismo do Centro Universitário SATC, sob a supervisão da professora Nadia Couto.




